Países europeus pressionados pela China a travar diplomacia de Taiwan

Pequim tem intensificado a pressão diplomática sobre vários países europeus para impedirem a entrada de políticos taiwaneses alegando incumprimento de normas europeias.

RTP /
Ann Wang - Reuters

As autoridades chinesas enviaram nos últimos meses notas diplomáticas formais e mensagens diretas a vários Estados europeus, em género de “aconselhamento jurídico”, apelando a que se proíbam as visitas de políticos taiwaneses, incluindo titulares de passaportes diplomáticos, segundo o jornal The Guardian.

A China argumenta que permitir essas deslocações violaria o Código das Fronteiras Schengen e poderia representar uma ameaça às “relações internacionais” dos Estados-membros com Pequim.

Essa leitura das normas europeias é, contudo, considerada por várias capitais como “forçada” e politicamente motivada, de acordo com diplomatas citados pelo Guardian.A pressão foi exercida junto de países como Bélgica, Alemanha, Polónia, Itália e Estados bálticos, num esforço para limitar qualquer sinal de reconhecimento político de Taiwan fora dos canais económicos e informais tradicionalmente tolerados por Pequim.


Em algumas comunicações, a China alertou para o risco de “cruzar linhas vermelhas”, contudo, vários governos na Europa rejeitaram qualquer interferência externa nas suas decisões.

Países como o Reino Unido, a Finlândia e a Noruega sublinham que a política dos vistos é uma matéria de soberania nacional e que não irão aceitar orientações impostas por terceiros.

“A autorização para entrar no Reino Unido é determinada exclusivamente pelas nossas próprias leis e regras de imigração, que se aplicam igualmente aos que viajam de Taiwan”, afirmou um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido ao Guardian.

“Pelo contrário, o uso de várias medidas coercivas pela China contra outros países e as suas ameaças de uso da força contra Taiwan, que prejudicam a paz e a estabilidade global e do Indo-Pacífico e ameaçam os interesses diretos da UE, são a verdadeira força que prejudica as relações internacionais europeias”, afirmou o porta-voz.

Também o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Taiwan afirmou que as visitas de funcionários à Europa são “totalmente alheias à China, e a China não tem o direito de interferir”.

Taiwan classificou a iniciativa chinesa como uma tentativa de “intimidação diplomática”, sublinhando que as deslocações internacionais dos seus representantes são legítimas e “não requerem a aprovação de Pequim”. “Amplo consenso” com Washington

A intensificação da pressão de Pequim à Europa surge num contexto de endurecimento da estratégia chinesa para isolar Taiwan no plano internacional, numa altura em que a ilha procura aprofundar laços económicos e políticos com parceiros ocidentais.

Outros instrumentos de pressão têm sido usados pela China ao longo das últimas semanas, de acordo com algumas notícias publicadas pela agência Reuters.

Entre elas estão algumas sanções pessoais contra responsáveis taiwaneses acusados de “atividades pró-independência” e uma intensificação da retórica contra países que reforçam contactos com Taipé, Taiwan.

Em paralelo, Taiwan tem procurado consolidar o apoio dos Estados Unidos. Taipé anunciou recentemente ter alcançado um “amplo consenso” com Washington em negociações tarifárias, num sinal de aprofundamento das relações económicas com o seu principal aliado, segundo a Reuters.

Embora sem ligação direta à pressão sobre a Europa, esse movimento reforça a perceção de Pequim de que Taiwan está a ganhar espaço internacional - um cenário que a China procura contrariar.

Para a União Europeia, o episódio expõe uma tensão recorrente: defender a autonomia das suas decisões diplomáticas sem agravar a relação com a China, um parceiro económico crucial. Ao mesmo tempo, coloca em evidência o desconforto europeu com tentativas externas de instrumentalizar regras internas, como o Espaço Schengen, para fins geopolíticos.

Como sublinham diplomatas citados pelo The Guardian, permitir que Pequim dite quem pode ou não entrar em território europeu abriria um precedente sensível- não apenas no caso de Taiwan, mas para a própria credibilidade da política externa europeia.

Claus Soong, analista do Instituto Mercator para Estudos sobre a China (MERICS)- especializado em estratégia global da China- disse que a medida se encaixa na estratégia de longa data de Pequim em usar todos os meios possíveis para impedir uma cooperação mais estreita com Taiwan.

“Pequim está a tentar, tanto quanto possível, dizer que é preciso pensar um pouco antes de deixar entrar autoridades taiwanesas. Eu não diria que é uma ameaça, é mais um lembrete, embora não necessariamente gentil”, afirma Soong.

Qualquer tentativa de condicionar decisões sobre vistos ou contactos institucionais coloca Portugal perante o mesmo desafio enfrentado por outras capitais europeias: preservar a soberania das suas decisões e o alinhamento europeu, sem comprometer uma relação estratégica com a China.
PUB