Paquistão. Poliomielite regressa à boleia da desinformação

por RTP
Uma criança recebe a vacina oral contra a poliomielite no Paquistão Akhtar Soomro - Reuters

A poliomielite estava quase erradicada no Paquistão, mas este ano assistiu-se a um regresso da doença infeciosa. Problemas relacionados com a transição política e campanhas de desinformação são as principais causas para o elevado número de infeções relacionadas com o vírus que têm surgido no país.

Atualmente, a poliomielite é uma doença endémica apenas no Paquistão, Afeganistão e Nigéria. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, desde 1998, os casos de infeção por poliomielite diminuíram em 99,9 por cento. Este ano, no entanto, verificou-se um regresso da doença, com pelo menos 125 casos registados, de acordo com o Global Polio Eradication Initiative.

A maioria destes casos (111) foi registada no Paquistão, que tinha reduzido o número de infeções de 306 em 2014 para apenas 12 em 2018. Uma das causas para este despertar da doença no Paquistão foi a desinformação. A poliomielite é um vírus que se reproduz nos intestinos rapidamente, sendo depois excretado nas fezes para o ambiente, infetando crianças que não estão imunizadas, correndo o risco de paralisia e morte.

Depois de, em abril, se ter espalhado o rumor de que a vacinação contra a poliomielite estava a deixar as crianças doentes, centenas de pais levaram os seus filhos ao hospital, enquanto milhares se recusaram a participar na campanha de vacinação.

A desinformação ultrapassou, no entanto, o rumor.

Foram lançadas campanhas de desinformação em massa sobre o uso da vacina, o que instaurou um clima de medo e fez com que os pais recusassem vacinar os filhos.

“Eles pegavam em vídeos de movimentos anti-vacina, traduziam-nos para urdu e depois eram publicados online”, explica Rana Muhammad Safdar, coordenador do Centro Nacional de Operações de Emergência do país na erradicação da poliomielite, à Al Jazeera.

“E eram controlados para que circulassem cerca de uma semana antes das nossas campanhas de imunização”, continua Safdar.
Transição política
Para além das campanhas de desinformação, o aumento de infeções está igualmente relacionado com questões políticas.

Na opinião de Muhammad Safdar, o principal obstáculo à erradicação da poliomielite foi a eleição geral, decorrida em meados de 2018, que elegeu um novo governo e levou a um colapso da coordenação nacional.

"Sempre que chega um novo governo, eles realizam transferências em larga escala”, explica Safdar, considerando que essas mudanças burocráticas afetam a campanha de vacinação.

O Centro Nacional de Operações de Emergência conta com mais de 250 mil vacinadores de poliomielite que viajam de porta em porta para chegarem às mais de 35 milhões de crianças no país. Para Safdar, a transição política “afetou a dinâmica das equipas e o tipo de supervisão existente, que diminuiu”.

Para além disso, os partidos políticos usaram os números crescentes de infeções de poliomielite como uma estratégia para criticar o governo.

A pressão política resultante levou os vacinadores a distorcer os seus resultados.

“Quando é exercida uma pressão desnecessária sobre eles e sentem que esses são os resultados que [as autoridades] desejam ver, eles começam então a fornecer esses resultados, em vez de se concentrarem nas vacinações concretas”, explica Safdar.
Uma moeda de troca
Para além destes dois fatores que contribuem para o aumento de casos de infeção de poliomielite, há ainda um terceiro: a luta por reivindicações sociais.

Os paquistaneses usam as campanhas de vacinação como uma moeda de troca para que o governo responda às suas exigências. Os pais recusam-se vacinar os filhos sem que as suas necessidades sejam atendidas.

“Eles sabem que se não aceitarem a vacinação contra a poliomielite haverá uma pressão sobre os funcionários do governo e, caso exista essa pressão, eles terão que prestar esses outros serviços”, explica um funcionário do programa de vacinação à Al Jazira.

“As pessoas dizem que nos estão a fornecer vacinas contra a poliomielite. Tudo bem, mas também precisamos de outros serviços: eletricidade, água e gás natural, emprego”, continua.

Kainat Mohmand é uma das responsáveis pela vacinação contra a poliomielite que tem assistido crianças na região de Ali Zai e explica que tem tentado “tornar o impossível, possível”.

“Se formos simpáticos e bem-educados, as pessoas ficam convencidas e aceitam-nos”, explicou Mohmand.

“Geralmente olham-nos com desconfiança. Pedem-nos que lhes expliquemos as coisas acerca da vacinação. Muitos deles ficam convencidos”, explica Mohmand.
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