Mundo
Proteção de dados. "Temos de evoluir e ter noção do que autorizamos"
O especialista em meios digitais Renato de Paula mostra-se preocupado com a proteção dos dados na internet. Apesar de elogiar os recentes diplomas europeus, o perito insiste, em entrevista à RTP, que este tema deve ser resolvido na próxima década e que os utilizadores têm de ter noção do que autorizam.
Em entrevista à RTP, Renato de Paula recorda que os utilizadores são constantemente confrontados com termos de utilização que aceitam sem ler. O responsável defende mesmo que a “privacidade deve ser o primeiro ponto a ser discutido” no que diz respeito aos mecanismos de regulação dos novos media.
O especialista em meios digitais defende ainda que deve ser amplamente debatido o poder que as grandes empresas de tecnologia têm atualmente e que soluções poderão ser aplicadas.
Sobre as multas aplicadas pela Comissão Europeia às tecnológicas norte-americanas, Renato de Paula vê uma tentativa de “encaixar dois mundos” para que o ser humano possa beneficiar deles. “Não vejo nisto uma tentativa de enfraquecer as empresas mas sim de tentar que elas façam sentido no mundo atual”, explicita.
Renato de Paula é um especialista internacional em meios digitais. Nasceu em São Paulo mas vive atualmente nos Estados Unidos, sendo um dos mais conceituados executivos de publicidade. É diretor-executivo da RED Fuse, agência que pertence ao WPP, o maior grupo de publicidade e marketing do mundo.
O aclamado publicitário é um dos convidados do Fronteiras XXI desta quarta-feira dedicado ao tema “A verdade e a mentira nas redes sociais”.
A colunista Clara Ferreira Alves, o especialista em assuntos internacionais Bernardo Pires de Lima e o subdiretor de informação da RTP para o multimédia, Alexandre Brito, fecham o painel de convidados. Um debate organizado pela RTP e pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, transmitido esta quarta-feira na RTP3.
RTP: É seguro que empresas como o Facebook e o Google tenham assim tanto poder?
Renato de Paula: É um tema que deve ser discutido. Nos Estados Unidos, até se discute se se deveria aplicar uma solução semelhante à da Microsoft nos anos 90. Acho que tem se aplicar algum tipo de correção, apesar de ser hoje muito mais difícil.
O Google e o Facebook são empresas de software, não de hardware. Não estamos a falar da indústria farmacêutica ou até mesmo dos computadores como equipamento. Falamos de éter, de software.
Que regras poderiam ser então aplicadas para o setor?
É uma questão muito difícil mas é um tema que tem de ser discutido até para benefício do próprio Facebook, Google e de outras plataformas. O próprio Google já se adaptou com a criação da holding Alphabet. É uma forma de segmentar os seus negócios, de se focar noutros pilares, e separar o motor de busca de outras empresas. As empresas vão se reestruturando.
Estas empresas estão a ir para além da própria comunicação tecnológica. Temos o Facebook a oferecer acesso à internet, a Google a apostar nos carros autónomos. Não estamos a deixar estas empresas controlar o nosso futuro?
Sim, mas também há outras empresas. A Amazon está a ganhar proporções incríveis, nomeadamente nos Estados Unidos. O poder da Amazon é compatível ao Google e ao Facebook. Mesmo a Apple e a Tesla. Se tudo resultar como Elon Musk espera, a Tesla poderá ser mais importante do que o Google e o Facebook.
São empresas de monopólio e que chegam ao ponto de controlar a informação a que temos acesso. Que estratégias de regulação são necessárias a nível global?
Na Europa, o GDPR é um passo importante. Estamos a transferir o poder dos dados das empresas para o ser humano. A privacidade deve ser o primeiro ponto a ser discutido. Se conseguirmos resolver esta questão em dez anos, o futuro será menos complexo. Sem isso, arriscamo-nos a ter problemas.
Que medidas concretas podem ser tomadas nessa área?
É preciso que os utilizadores autorizem a utilização dos seus dados. Temos de dar autorização a toda e qualquer utilização que envolva os nossos dados. Neste momento, apresentam-nos termos e condições gigantescos, que o utilizador aceita e não lê. Temos de evoluir e ter noção do que estamos a autorizar. Posteriormente, é preciso que nos seja confirmada a utilização que é dada a esses dados: a quem são vendidos e para quê. Aqui entra o papel do Governo.
A União Europeia tem aplicado multas milionárias aos gigantes da internet. Como é que as perceciona: garantes da livre concorrência ou tentativa de enfraquecer as empresas norte-americanas?
São os ecossistemas a encaixar, a adaptar-se. Estão a colocar-se empresas com uma dinâmica e infraestrutura nova num processo mais antigo, nomeadamente de pagamento de imposto. Estamos a tentar encaixar dois mundos que não sei se realmente se conectam mas que têm de o fazer, para que o ser humano possa beneficiar deles.
Não podemos aceitar que essas empresas cresçam sem parar neste mundo digital que não tem as fronteiras do mundo físico. É preciso estabelecer alguns limites até para que seja possível governar. Não vejo nisto uma tentativa de enfraquecer as empresas mas sim de tentar que elas façam sentido no mundo atual.
O especialista em meios digitais defende ainda que deve ser amplamente debatido o poder que as grandes empresas de tecnologia têm atualmente e que soluções poderão ser aplicadas.
Sobre as multas aplicadas pela Comissão Europeia às tecnológicas norte-americanas, Renato de Paula vê uma tentativa de “encaixar dois mundos” para que o ser humano possa beneficiar deles. “Não vejo nisto uma tentativa de enfraquecer as empresas mas sim de tentar que elas façam sentido no mundo atual”, explicita.
Renato de Paula é um especialista internacional em meios digitais. Nasceu em São Paulo mas vive atualmente nos Estados Unidos, sendo um dos mais conceituados executivos de publicidade. É diretor-executivo da RED Fuse, agência que pertence ao WPP, o maior grupo de publicidade e marketing do mundo.
O aclamado publicitário é um dos convidados do Fronteiras XXI desta quarta-feira dedicado ao tema “A verdade e a mentira nas redes sociais”.
A colunista Clara Ferreira Alves, o especialista em assuntos internacionais Bernardo Pires de Lima e o subdiretor de informação da RTP para o multimédia, Alexandre Brito, fecham o painel de convidados. Um debate organizado pela RTP e pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, transmitido esta quarta-feira na RTP3.
RTP: É seguro que empresas como o Facebook e o Google tenham assim tanto poder?
Renato de Paula: É um tema que deve ser discutido. Nos Estados Unidos, até se discute se se deveria aplicar uma solução semelhante à da Microsoft nos anos 90. Acho que tem se aplicar algum tipo de correção, apesar de ser hoje muito mais difícil.
O Google e o Facebook são empresas de software, não de hardware. Não estamos a falar da indústria farmacêutica ou até mesmo dos computadores como equipamento. Falamos de éter, de software.
Que regras poderiam ser então aplicadas para o setor?
É uma questão muito difícil mas é um tema que tem de ser discutido até para benefício do próprio Facebook, Google e de outras plataformas. O próprio Google já se adaptou com a criação da holding Alphabet. É uma forma de segmentar os seus negócios, de se focar noutros pilares, e separar o motor de busca de outras empresas. As empresas vão se reestruturando.
Estas empresas estão a ir para além da própria comunicação tecnológica. Temos o Facebook a oferecer acesso à internet, a Google a apostar nos carros autónomos. Não estamos a deixar estas empresas controlar o nosso futuro?
Sim, mas também há outras empresas. A Amazon está a ganhar proporções incríveis, nomeadamente nos Estados Unidos. O poder da Amazon é compatível ao Google e ao Facebook. Mesmo a Apple e a Tesla. Se tudo resultar como Elon Musk espera, a Tesla poderá ser mais importante do que o Google e o Facebook.
São empresas de monopólio e que chegam ao ponto de controlar a informação a que temos acesso. Que estratégias de regulação são necessárias a nível global?
Na Europa, o GDPR é um passo importante. Estamos a transferir o poder dos dados das empresas para o ser humano. A privacidade deve ser o primeiro ponto a ser discutido. Se conseguirmos resolver esta questão em dez anos, o futuro será menos complexo. Sem isso, arriscamo-nos a ter problemas.
Que medidas concretas podem ser tomadas nessa área?
É preciso que os utilizadores autorizem a utilização dos seus dados. Temos de dar autorização a toda e qualquer utilização que envolva os nossos dados. Neste momento, apresentam-nos termos e condições gigantescos, que o utilizador aceita e não lê. Temos de evoluir e ter noção do que estamos a autorizar. Posteriormente, é preciso que nos seja confirmada a utilização que é dada a esses dados: a quem são vendidos e para quê. Aqui entra o papel do Governo.
A União Europeia tem aplicado multas milionárias aos gigantes da internet. Como é que as perceciona: garantes da livre concorrência ou tentativa de enfraquecer as empresas norte-americanas?
São os ecossistemas a encaixar, a adaptar-se. Estão a colocar-se empresas com uma dinâmica e infraestrutura nova num processo mais antigo, nomeadamente de pagamento de imposto. Estamos a tentar encaixar dois mundos que não sei se realmente se conectam mas que têm de o fazer, para que o ser humano possa beneficiar deles.
Não podemos aceitar que essas empresas cresçam sem parar neste mundo digital que não tem as fronteiras do mundo físico. É preciso estabelecer alguns limites até para que seja possível governar. Não vejo nisto uma tentativa de enfraquecer as empresas mas sim de tentar que elas façam sentido no mundo atual.