Protestos contra vacinas no Canadá. Impasse, bloqueio, prisões e população "refém" de camionistas

O primeiro-ministro canadiano acusou nas últimas horas os manifestantes contra a vacinação obrigatória de tentarem "bloquear a economia". Os camionistas em protesto respondem exigindo o afastamento de Justin Trudeau. Na base deste "comboio da liberdade" estão os movimentos extremistas QAnon e Action4Canada.

Carla Quirino - RTP /
Kadri Mohamed - EPA

Desde de meados de janeiro que a capital do Canadá está a atrair manifestantes contra as regras de vacinação obrigatória dos motoristas que atravessem a fronteira entre Estados Unidos e Canadá.

O escopo dos protestos alargou-se e abrange agora todas as medidas restritivas implementadas pelo Governo de Justin Trudeau.

A solidariedade de outros motoristas fora da capital com os manifestantes do comboio da liberdade já está a ter impacto na economia do país.
Manifestações nas cidades de Toronto e Vancouver e o bloqueio das pontes de Detroit e Ambassador, entre Windsor, Ontário e Detroit, estão a "tentar bloquear a economia", acusou o primeiro ministro canadiano.

A Canadian Trucking Alliance, que representa as principais associações de transporte que abastecem o Canadá, afirma que a "grande maioria" dos motoristas está vacinada.
Associa-se à preocupação de Trudeau e, em comunicado, pede que as partes "trabalhem juntas" para que "os principais corredores comerciais" sejam desbloqueados".

"A economia do Canadá está a ser ameaçada à medida que milhares de camiões e milhões de dólares no comércio transfronteiriço estão interrompidos", acrescenta.
Incidentes
A cidade de Ottawa, em estado de emergência desde domingo, vê crescer o impasse que se arrasta há pelo menos duas semanas.

Entre os incidentes contam-se distúrbios no Túmulo do Soldado Desconhecido, no Memorial Nacional de Guerra, onde alguns manifestantes foram vistos aos pulos e a dançar.

A polícia já fez pelo menos 20 detenções e estão em curso perto de 80 investigações criminais associadas a relatos de abuso racial e homofóbico.


Twitter

De acordo como o jornal britânico The Guardian, esta coordenação, sem precedentes, entre grupos anti-vacinas e anti-governamentais terá sido ideia de James Bauder, um teórico da conspiração que defende o movimento QAnon. Este ativista conquistou muitos apoiantes quando afirmou que a covid-19 é "o maior golpe político da História".

Outro grupo associado aos protestos é o Action4Canada, que alega que o "falso pronunciamento de uma pandemia de covid-19" foi realizado, pelo menos em parte, por Bill Gates e uma "Ordem do Novo Mundo (Económico)" para facilitar a injeção de microchips habilitados para 5G na população".

Nesta amálgama de extremistas, há testemunhos de bandeiras neonazis hasteadas e logótipos do movimento QAnon com o rosto de Trudeau estampado e a exibir a mensagem: "Procurado por crimes contra a humanidade".
Nervos dos residentes
O protesto maciço diz-se pacífico, mas há relatos de ameaças à população.

"Estamos todos fartos", desabafa Marika Morris, residente em Ottawa. "Eles não têm o direito de nos fazer reféns", protesta.

À fúria dos moradores, um motorista de Ontário responde: "Aqui, não há nada além de amor, união e paz". "É importante para mim vir aqui para lutar por minhas liberdades", acrescenta John Van Vleet.

Numa cidade à beira de um ataque de nervos, o sub-chefe de polícia Steve Bell adverte: "A nossa mensagem para os manifestantes continua a mesma: não venham. Se o fizerem, haverá consequências".

Bell disse também que a polícia identificou, entre os quase 500 veículos do comboio, cerca de 100 camiões com crianças a bordo. As autoridades já reportaram este dado à Children's Aid Society, referindo "preocupações com barulho, fumo e higiene".
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