Provavelmente "milhares" de mortos no Irão

A ONG Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, afirmou esta terça-feira que o número real de mortos na repressão dos protestos no Irão pode chegar aos milhares. Um canal de televisão adianta um número: 12.000.

Graça Andrade Ramos - RTP /
AFP

Confirmadas estão já 734 mortos nas manifestações desde o início do movimento de protesto contra o governo xiita.

A IHR "continua a receber relatos de milhares de mortes em várias cidades e províncias do Irão", afirmou a organização, após mais de duas semanas de protestos.

A Organização dos Mujahedin do Povo do Irão (OMPI), um grupo de oposição ao regime, que baseia os cálculos em fontes locais, hospitais e familiares das vítimas, por seu lado, estima que o número de mortos atinge os 3.000

Há já quem refira 12.000 mortos.

O Iran International, um canal de televisão por satélite em língua persa e também uma plataforma digital de notícias multilíngue, fala em 12.000 vítimas mortais, referindo números do próprio regime.

O seu Conselho Editorial emitiu um comunicado esta terça-feira, no qual garante a idoneidade da conclusão.

"Nos últimos dias, após receber relatos dispersos, mas chocantes e profundamente preocupantes, a Iran International concentrou-se na verificação da informação, para construir um panorama mais claro da dimensão da repressão e dos assassinatos ocorridos durante os protestos mais recentes", adiantou.

"A equipa editorial do Iran International analisou - através de um processo rigoroso e multifásico, em conformidade com as normas profissionais estabelecidas - informações recebidas de uma fonte próxima do Conselho Supremo de Segurança Nacional; duas fontes do gabinete presidencial; relatos de diversas fontes dentro da Guarda Revolucionária Islâmica nas cidades de Mashhad, Kermanshah e Isfahan; depoimentos de testemunhas oculares e familiares das vítimas; relatórios de campo; dados ligados a centros médicos; e informações fornecidas por médicos e enfermeiros em várias cidades", elencou.

"Com base nestas análises, concluímos que: no maior massacre da história contemporânea do Irão - ocorrido em grande parte ao longo de duas noites consecutivas, quinta e sexta-feira, 8 e 9 de Janeiro - pelo menos 12.000 pessoas foram mortas.

Em termos de abrangência geográfica, intensidade da violência e número de mortes num curto período, este massacre não tem precedentes na história do Irão", concluiu o Iran International.
Ajuda "a caminho"
Numa altura em que o regime islamita afirma que os protestos das últimas duas semanas estão a perder força, o presidente dos Estados Unidos publicou uma mensagem de alento aos manifestantes.

"Continuem", "a ajuda está a caminho", escreveu Donald Trump numa publicação na sua rede Truth Social, sem detalhar contudo pormenores exceto de animar os manifestantes a ocupar "instituições".

"Patriotas iranianos, CONTINUEM A PROTESTAR - OCUPEM AS VOSSAS INSTITUIÇÕES!!!", escreveu o presidente norte-americano, acrescentando que tinha "cancelado todas as reuniões com as autoridades iranianas até que cessem os assassinatos sem sentido de manifestantes".

"MIGA!" conclcluiu, a sigla para 'Make Iran Great Again!', uma variação do seu próprio slogan.

Moscovo reagiu de imediato, ainda antes de Teerão e alertou para a eventualidade de ataques diretos a alvos iranianos, que considerou "categoricamente inaceitáveis".

A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Maria Zakharova, sugeriu que tal ação teria "consequências desastrosas" no Médio Oriente, "bem como para a segurança internacional global", numa clara advertência a Washington.

Trump anunciou segunda-feira a imposição de tarifas de 50 por cento sobre as importações americanas dos parceiros comerciais do Irão, decisão que Zakharova classificou como "chantagem".

"Rejeitamos veementemente as tentativas descaradas de chantagear os parceiros estrangeiros do Irão com o aumento das tarifas comerciais", referiu em comunicado.

A Rússia faz eco da narrativa do governo iraniano, dizendo que os protestos são "artificialmente fomentados" e que "estão a diminuir".

Terça-feira, o boicote às comunicações imposto por Teerão, em todo o país, foi aparentemente aligeirado, com iranianos a ser capazes de contactar familiares no exterior.

A internet continua em baixo, há mais de 100 horas
, e há rumores de que forças do regime estão a procurar e a destruir satélites de comunicação com o sistema Starlink, que tinha permitido aos opositores do regime dar conta da repressão dos protestos.
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