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Regime de Myanmar libertou Aung San Suu Kyi

Regime de Myanmar libertou Aung San Suu Kyi

As autoridades militares da antiga Birmânia colocaram hoje um ponto final à prisão domiciliária de Aung San Suu Kyi, figura de proa da Oposição pró-democracia naquele país do sudeste da Ásia. Milhares de birmaneses celebraram nas ruas de Rangum a libertação da Nobel da Paz, que viveu 15 dos últimos 21 anos aprisionada pela ditadura. O Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, já veio dizer que "é tempo de o regime birmanês libertar todos os presos políticos".

RTP /
A Nobel da Paz Aung San Suu Kyi vai encontrar um movimento pró-democracia fracturado pelo regime militar Nyein Chan Naing, EPA

A ordem de libertação, com o selo da junta de oficiais que governa Myanmar com mão de ferro desde 1962, foi comunicada a Aung San Suu Kyi cerca das 17h00 locais (10h30 em Lisboa). Pouco depois, a líder da Oposição democrática emergia de mais de sete anos de prisão domiciliária para aparecer a uma multidão de cinco mil apoiantes que depressa se concentrou à porta da sua residência em Rangum.

A sorrir, com uma flor no cabelo, Aung San Suu Kyi, hoje com 65 anos, falou por instantes aos seus partidários. Prometeu voltar a fazê-lo amanhã na sede da Liga Nacional para a Democracia (LND), o partido que a ditadura impediu de chegar ao poder, após uma vitória esmagadora nas eleições de 1990. “Há um tempo para estar em silêncio e um tempo para falar. As pessoas devem trabalhar em uníssono. Só então poderemos atingir o nosso objectivo”, afirmou.

Cresce, agora, a expectativa sobre a verdadeira amplitude do estatuto concedido a Suu Kyi. Pouco antes de as forças de segurança terem começado a remover as barricadas que impediam o acesso à casa da líder da Oposição, o seu advogado, Nyan Win, deixava claro que o movimento democrático não estaria disposto a aceitar uma liberdade condicionada a uma inactividade política.

“Uma inspiração para todos”

Aung San Suu Kyi, filha da figura tutelar da independência da Birmânia, o general Aung San, permaneceu 15 dos últimos 21 anos privada de liberdade. A última vez que pôde circular sem restrições foi em Maio de 2003. A sua libertação vinha sendo exigida com insistência pela comunidade internacional, incluindo alguns países-membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN).

O primeiro-ministro britânico foi um dos primeiros líderes mundiais a reagir à decisão da junta militar, condenando a “farsa” de uma prisão domiciliária que se prolongava há sete anos e meio. Aung San Suu Kyi, sublinhou o conservador David Cameron, “é uma inspiração para todos os que acreditam na liberdade de expressão, na democracia e nos Direitos Humanos”.

Em Yokohama, no Japão, onde está a decorrer a cimeira dos países do Fórum de Cooperação Económica Ásia-Pacífico (APEC), o Presidente norte-americano repercutiu as declarações do aliado anglófono para saudar a libertação da Nobel da Paz, a quem chamou de “heroína”. “É tempo de o regime birmanês libertar todos os presos políticos, não apenas um. Os Estados Unidos esperam ver, um dia, todos os birmaneses livres do medo e da perseguição”, instou Barack Obama.

Oposição fracturada
A líder da LND esteve prestes a ser libertada em 2009. Mas o regime acabaria por estender a pena de prisão domiciliária, depois de um cidadão norte-americano ter atravessado a nado o Lago Inya e entrado na propriedade de Suu Kyi.

A decisão das autoridades militares birmanesas surge na esteira das eleições do último fim-de-semana. Na terça-feira, o Partido da Solidariedade e do Desenvolvimento da União (USDP), criado há alguns meses para representar a junta no processo eleitoral, reclamava ter conquistado “cerca de 80 por cento dos assentos” no Parlamento nacional e nas 14 assembleias regionais do país, fixando a participação do eleitorado em 70 por cento. Os resultados difundidos até ao momento dão à USDP, do primeiro-ministro Thein Sein, 190 dos 330 assentos da câmara baixa (Câmara dos Representantes) e 107 dos 168 lugares da câmara alta (Câmara das Nacionalidades).

Na antecâmara das eleições, o regime decretou a dissolução da LND, depois de o partido de Aung San Suu Kyi ter decidido boicotar o processo. Uma parte dos quadros da Liga optou pela dissidência, apresentando-se nas urnas sob as cores da Força Democrática Nacional (NDF). Por outro lado, um quarto dos assentos nas duas câmaras parlamentares é reservado aos militares, o que blinda ainda mais o edifício político montado pela junta.
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