Reino Unido quer missão europeia de proteção marítima no Estreito de Ormuz

por Graça Andrade Ramos - RTP
A fragata italiana Espero, vista de uma vigia do HMS Echo, durante exercícios da NATO em setembro de 2018 Alessandro Bianch - iReuters

A apreensão iraniana de um petroleiro de bandeira britânica, sexta-feira passada, no Estreito de Ormuz, está a levar o Reino Unido a pôr de lado, momentaneamente, os seus desejos de independência e a apelar por apoio à Europa, para garantir a segurança dos seus navios na área.

Várias vozes denunciaram, no fim de semana, a incapacidade militar britânica na defesa dos interesses do Reino Unido e os Estados Unidos, enquanto lamentaram o sucedido, preparam-se para sacudir a água do capote.

Aos microfones da americana Fox News, Mike Pompeo, secretário de Estado dos EUA, avisou, esta segunda-feira, que os britânicos são os únicos responsáveis pela proteção aos navios britânicos.

Uma farpa, devido às reticências do Reino Unido na resposta ao convite norte-americano para a constituição de uma força naval internacional que vigie as águas da região do Golfo Pérsico.

Palavras que terão caído mal esta manhã, na reunião do gabinete de crise, convocada pela [ainda] primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May,  para estudar a resposta a dar à apreensão dia 19 de julho pelo Irão, do petroleiro de bandeira britânica, Stena Impero.
Ato de pirataria
Durante a tarde, Jeremy Hunt, o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, revelou ao Parlamento o que ficou decidido pelo Executivo.

O Reino Unido vai tentar constituir uma missão de proteção marítima sob liderança europeia, que garanta o trânsito naquela área, anunciou.

"Sob a lei internacional o Irão não tem qualquer direito de obstruir a passagem do navio - e muito menos aborda-lo. Foi por isso um ato de pirataria", acusou Hunt.

"Quando se fala de liberdade de navegação não pode haver meio-termo", afirmou ainda, esclarecendo de imediato que o Reino Unido "não procura o confronto".

"Vamos por isso propor a constituição de uma missão de proteção marítima, liderada pela Europa, para apoiar o trânsito tanto de tripulações como de cargas em segurança, nesta região vital", revelou, acrescentando que seria também debatido de que forma esta missão irá complementar as propostas norte-americanas na área.

A crise internacional com o Irão precipitou-se após os Estados Unidos rasgarem o Acordo sobre o Programa Nuclear do Irão. Hunt sublinhou aos deputados que, apesar disso, os norte-americanos continuam a cooperar em diversas questões.

"É por isso que a solução que propomos à Câmara [dos Comuns] esta tarde é uma que agrega uma aliança de muitos mais paises, incluindo outros como nós que têm uma visão diferentes do Acordo Nuclear iranniano", explicou.
Reforço
O Governo britânico solicitou também aos navios com bandeira britânica que informem as autoridades do Reino Unido em caso de passagem do Estreito de Ormuz, revelou Hunt. Nos últimos dias, nenhum tentou a travessia.

A imprensa britânica refere por seu lado que vão ser enviados para a região dois navios de guerra e um submarino nuclear - o qual irá assumir somente ações de vigilância e, eventualmente, defensivas.

A escolta de navios mercantes pela Navy britânica, foi decidida no início de julho, após as ameaças iranianas de retaliação ao arresto, em finais de junho, de um dos seus petroleiros pelas autoridades do enclave britânico de Gibraltar, no sul de Espanha.

O Governo britânico enviou então uma fragata, a HMS Montrose, para escoltar os navios comerciais britânicos em trânsito na região.

Se, a 10 de julho, esta cumpriu as suas funções, evitando o que teria sido uma primeira tentativa de captura de um petroleiro britânico pelo Irão, sexta-feira passada não foi suficiente - o vaso de guerra chegou ao local 10 minutos atrasado.

Entre a confusão da transição política, algumas vozes britânicas exigiram saber porquê. A resposta do Executivo não deverá satisfazê-las.
Falta de recursos
Estes são tempos difíceis para o Reino Unido, em iminência de ter um novo primeiro-ministro controverso, a par de uma crise de liderança na oposição e da ameaça de uma recessão económica, em caso de saída da União Europeia sem acordo.

As últimas coisas que Westminster e Downing Street precisavam era de uma crise internacional grave, a par de um debate sobre as reais capacidades ofensivas e dissuasoras da Royal Navy e, por extensão, de todas as suas forças armadas.

O contra-almirante da Royal Navy, Alex Burton, na reserva, foi um dos mais críticos da situação, denunciando a diminuição da força naval do Reino Unido nos últimos 13 anos e apontando o dedo sem hesitar aos políticos, pela sua falta de visão estratégica.

"Não há dúvida que o tamanho da marinha desde 2005 - reduzida de 31 fragatas e contra-torpedeiros para os 19 atuais - teve um impacto na nossa capacidade de proteger os nossos interesses ao redor do mundo", afirmou.

"Cumprimento os políticos por reconhecer isto agora, mas deviam tê-lo admitido e pressionado há mais tempo", acrescentou.
Os EUA também falharam
De potência marítima mundial há 100 anos, o Reino Unido vê-se agora na necessidade de desviar as atenções, mencionando que também a marinha de guerra dos EUA falhou contra a atual ameaça iraniana no Golfo. Esta, lembra o executivo, "não afeta apenas" os britânicos.

"Há muitas críticas sobre a Marinha, sobre o facto do HMS Montrose não chegar a tempo - eu deveria referir que os Estados Unidos têm cinco ou seis navios de guerra na região, incluindo um porta-aviões, e em meados de junho dois dos seus petroleiros foram atacados e um deles incendiado", disse o ministro britânico da Defesa, Tobias Ellwood, num programa de rádio, esta manhã.

"Por isso, isto é algo que nos afeta a todos, requer uma cooperação internacional, mas também e mais importante, reconhecer que enfrentamos um maior desafio - a razão pela qual o Irão está a agir como está", justificou Ellwood.

O ministro britânico não deixou de frisar a necessidade de maior investimento e financiamento nas Forças Armadas, devido a ameaças "mais complexas e diversas", dando como exemplo a crise iraniana.
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