"Tensão e preocupação". Rangel defende "resposta firme" europeia aos EUA

Portugal celebra os 40 anos de adesão à União Europeia num contexto "de tensão e de preocupação" com as posições norte-americanas sobre a aquisição da Gronelândia e a aplicação de tarifas a determinados Estados-membros.

Inês Moreira Santos - RTP /
António Pedro Santos - Lusa

O ministro dos Negócios Estrangeiros está em Estrasburgo, esta quarta-feira, para a cerimónia comemorativa dos 40 anos adesão de Portugal e Espanha à CEE.

"Antes de mais devemos celebrar esses 40 anos de integração europeia, que também são 50 anos de adesão ao Conselho da Europa", começou por destacar Paulo Rangel, em entrevista à RTP, recordando que esta União Europeia de hoje é "muito diferente". 

Começou por ser a união de dez países, depois passou a 12 e, atualmente, é constituída por 27 Estados-membros "muito diferentes" e menos homogéneos.

A União Europeia, segundo o ministro português dos Negócios Estrangeiros, vive uma "situação de tensão e de preocupação", principalmente devido aos "laços transatlânticos", importantes "para o reforço da própria unidade europeia".Os líderes europeus reúnem-se na quinta-feira para debater o relacionamento com os Estados Unidos.

"Os Estados Unidos foram sempre muito favoráveis a que a Europa fizesse este diálogo: nomeadamente, que a Alemanha e a França se reconciliassem depois de três guerras - a franco-prussiana e depois a Primeira e a Segunda Guerra Mundial", recordou. "Os Estados Unidos eram um grande aliado da integração europeia".

Sem admitir que os Estados Unidos são o "inimigo", Rangel não escondeu que "existe uma grande desconfiança da União Europeia", assim como "uma tentativa da fazer a relação apenas bilateralmente". "Isto é, com os vários Estados mas não com a União enquanto tal, não com os seus representantes. Isso, obviamente, põe desafios que nós não tivemos depois da Segunda Guerra Mundial; são desafios que, nos últimos 80 anos, (...) não se puseram".

O chefe da diplomacia portuguesa admitiu estar de acordo com a posição de Ursula von der Leyen: "temos de ser muito firmes, para além de termos de responder". Contudo, considera que "não devemos entrar numa escalada retórica".

Face às declarações de Donald Trump sobre querer ocupar a Gronelândia, a "Europa deve responder de uma forma firme".

Para começar, Rangel considerou fundamental "deixar claro (...) que queremos diálogo" e "não queremos escalar as respostas""Havendo uma reação nas tarifas, portanto nos direitos aduaneiros, (...) evidentemente que tem de haver uma resposta", clarificou. "O Parlamento Europeu já deu uma resposta, porque ia ratificar aquele acordo que foi feito no verão (...) e já suspendeu esse processo".

Já na terça-feira, o ministro tinha anunciado que Portugal apoia uma resposta europeia às tarifas anunciadas pelo presidente norte-americano sobre países que se opõem ao controlo da Gronelândia pelos Estados Unidos.

A União Europeia terá de ter uma reação: "temos, apesar de tudo, algum tempo (...) para tentar uma negociação em que esse fator não seja mais um a complicar a relação transatlântica".

"Mas não há dúvida que na questão da Gronelândia nós temos que ser muito claros, no sentido de dizer que se trata de um direito de autodeterminação das pessoas da Gronelândia e também da Dinamarca, a respeito pela sua soberania. E isso é um princípio do qual nós não podemos abdicar".
Jornal da Tarde | 21 de janeiro de 2026

Considerando que o caso da operação norte-americana na Venezuela é "diferente", Rangel frisou que não se trata "de tomar conta" do país, "é uma ingerência com determinadas características", cujo objetivo é uma transição diplomática. 

Já no caso da Gronelândia há por parte dos Estados Unidos "vontade de aquisição de território" e "estamos a falar de membros da NATO"
. Nesse sentido, acredita que a posição europeia é a de "forçar os Estados Unidos de alguma maneira a virem dialogar" para se encontrar uma solução. 

"As questões de segurança e até de geoeconomia postas pelos Estados Unidos podem ser perfeitamente resolvidas, sem nenhuma mudança da integridade territorial".
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