Tiroteio em Buffalo. Biden diz que "ódio permanece como mancha na alma" dos EUA

por Carla Quirino - RTP
Brendan McDermid - Reuters

O presidente dos Estados Unidos lamentou o tiroteio de sábado em Buffalo, no Estado de Nova Iorque, que fez dez mortos e três feridos. O ataque está a ser investigado "como um crime de ódio e um caso de extremismo violento" com motivações raciais, de acordo com o FBI.

Joe Biden fala em "terrorismo doméstico que vai contra tudo o que a América representa".

"Temos de trabalhar em conjunto para combater o ódio que permanece como uma mancha na alma da América", apelou o presidente dos Estados Unidos, durante uma cerimónia em Washington para homenagear os polícias que morreram em serviço no ano passado.

Biden acrescentou: "Qualquer ato de terrorismo doméstico, incluindo um ato perpetrado em nome de uma repugnante ideologia nacionalista branca, é anti-ético a tudo o que defendemos na América. O ódio não deve ter porto seguro. Devemos fazer tudo ao nosso alcance para acabar com o terrorismo doméstico alimentado pelo ódio".O suspeito do ataque num supermercado de Buffalo foi identificado como Payton Gendron, de 18 anos.

O presidente norte-americano afirmou que o "atirador solitário, equipado com armas de guerra e com uma alma cheia de ódio, matou dez pessoas inocentes a sangue-frio".

Também Kamala Harris, vice-presidente dos Estados Unidos, lamentou, em comunicado, que o país "esteja a sofrer uma epidemia de ódio", que se traduz em "atos de violência e intolerância".

"Devemos denunciá-lo e condená-lo", completou.

Também António Guterres condenou o ataque racista,  segundo um comunicado do porta-voz adjunto da ONU Farhan Haq: "O secretário-geral da ONU está chocado com o assassínio de dez pessoas após um desprezível ato de extremismo racista e violento em Buffalo".

O secretário-geral das Nações Unidas "expressou também condolências às famílias e entes queridos das vítimas e manifestou, ao mesmo tempo, esperança de que fosse feita justiça em breve".
O atirador
O agressor, identificado como Payton Gendron, foi detido depois do ataque. Estava armado, usava um capacete equipado com câmara para transmitir o tiroteio em direto na internet, colete à prova de balas e roupas de tipo militar.

Segundo Joseph Gramagliam, comissário da polícia de Buffalo, o atacante "saiu do seu carro e alvejou quatro pessoas no parque de estacionamento do estabelecimento comercial. Depois, entrou na loja e começou a disparar contra os clientes".


Julie Harwell estava no supermercado Tops quando o atirador começou a disparar | Seth Harrison - USA Today Network via Reuters

Do total das vítimas atingidas, 11 eram afroamericanas. Segundo a imprensa dos Estados Unidos, as autoridades investigam um manifesto "de caráter racista" divulgado na internet, no qual o suspeito explicaria seus planos e motivações.

O ataque no Tops Friendly Market foi transmitido pelo presumível agressor na plataforma de streaming Twitch. Depois entregou-se às autoridades. A Twitch disse em comunicado que encerrou a transmissão de Gendron "menos de dois minutos após o início da violência".

Mais tarde, o suspeito compareceu diante de um juiz e foi indiciado por uma acusação de assassinato em primeiro grau. Declarou-se inocente.
O ataque
O jovem diz-se de Conklin, no Estado de Nova Iorque, a cerca de 320 quilómetros a sudeste de Buffalo. Ainda não é claro por que razão Gendron viajou para Buffalo e rumou àquela loja em particular.

O comissário de polícia de Buffalo, Joseph Gramaglia, descreveu que, no interior do supermercado, o segurança Aaron Salter, antigo polícia, disparou vários tiros. Uma bala atingiu colete do atirador, mas não teve efeito, disse Gramaglia.

O atirador matou o segurança e atravessou a loja, disparando contra outras vítimas. A polícia entrou no supermercado e confrontou o atirador à entrada. Gendron aproximou a própria arma do pescoço, mas dois agentes convenceram-no a não disparar, contou Gramaglia.

As autoridades investigam agora os antecedentes para construirem o puzle dos passos e motivações do suspeito.

No manifesto publicado online, é expressado o desejo de expulsar dos Estados Unidos todas as pessoas que não são descendentes de europeus. Escreve que se inspirou no homem que fez 51 mortos em duas mesquitas de Christchurch, na Nova Zelândia, em 2019, e apelou ainda ao assassinato do presidente da câmara de Londres, Sadiq Khan.

A governadora de Nova Iorque, Kathy Hochul, adiantou à CNN que a arma do atirador era uma AR-15 e foi comprada legalmente no Estado: "A arma foi comprada legalmente numa loja de armas no Estado de Nova Iorque, uma AR-15. Mas o que tornou isto tão letal e tão devastador para esta comunidade foi o carregador de alta capacidade que teria que ser comprado noutro lugar, pois não é legal no Estado de Nova Iorque".
Outro ataque na madrugada de domingo em Los Angeles
Uma pessoa morreu e outras cinco ficaram feridas, das quais quatro com gravidade, num ataque perpetrado no domingo contra uma igreja do sul da Califórnia.

O atirador entrou no edifício durante o almoço de uma congregação de Taiwan e disparou contra as pessoas. Trinta a 40 pessoas estavam dentro da igreja no momento do ataque. Os cinco feridos são asiáticos.


Igreja Laguna Woods após o ataque | Alana Geiger - Reuters

A polícia declarou que o atirador, um homem asiático de 60 anos, estava armado com duas pistolas quando entrou na Igreja Presbiteriana de Genebra em Laguna Woods, cerca das 13h30.

Depois da celebração dos cultos matinais, os fiéis reuniram-se para um almoço à tarde, disse Jeff Hallock, adjunto do xerife de Orange County, em conferência de imprensa. Durante a agressão, um grupo de fiéis conseguiu travar o atirador.

Quando as autoridades chegaram, encontraram o suspeito amarrado e deitado no chão, mas sem ferimentos. Ainda não são claros os motivos deste ataque, mas a polícia não descarta poder ser considerado um crime de ódio.

Em 2019, outro homem branco, Patrick Crusius, atravessou o Texas e dirigiu-se para a cidade fronteiriça de El Paso. A motivação era assassinar hispânicos. O ataque armado matou 23 pessoas.
Lei
Joe Biden diz que tem tentado persuadir os legisladores a aprovarem diretivas para que seja implementada uma verificação de antecedentes criminais aos compradores de armas.

A lei que regula a posse de armas está protegida pela segunda emenda da Constituição norte-americana há mais de duas décadas e não sofreu alterações significativas pelo Congresso.

O presidente dos Estados Unidos visita na terça-feira a cidade de Buffalo.
pub