"Tragédia". Dezenas de migrantes mortos em naufrágio no Canal da Mancha

por RTP
Migrantes acenam a bordo de um barco antes de tentar a travessia do canal da Mancha Reuters

O número poderá crescer ainda, tendo sido confirmados 31 óbitos pela polícia francesa ao fim da tarde. Outros 26 migrantes terão sido recolhidos com vida. O naufrágio deu-se ao largo de Calais. O primeiro-ministro francês, Jean Castex, fala em "tragédia", o Presidente Emmanuel Macron pede uma reunião urgente de líderes europeus e o chefe de Governo britânico, Boris Johnson, promete "desmantelar" as redes de traficantes.

Forças britânicas e francesas estão a conduzir buscas na área, por mar e por ar e o primeiro-ministro britânico convocou o gabinete de crise. Boris Johnson mostrou-se "chocado, revoltado e profundamente triste", com a morte de migrantes. O alarme foi dado por pescadores ao início da tarde de quarta-feira, ao notar a presença de várias pessoas na água, ao largo da costa francesa.

“Os meus pensamentos estão com todos os desaparecidos e feridos, vítimas de contrabandistas criminosos que exploram o seu desespero”, reagiu por seu lado Jean Castex.

O Governo francês irá reunir ao mais alto nível quinta-feira de amanhã para analisar formas de impedir novas travessias e mais mortes, anunciou Matignon.

O Presidente francês Emmanuel Macron confirmou a morte de 31 migrantes e prometeu "encontrar os responsáveis", apelando a uma reunião "urgente" com os líderes europeus sobre o problema da imigração ilegal".

"A França não vai permitir que o Canal da Manche se transforme num cemitério", afirmou.

Franck Dhersin, vice-presidente para a mobilidade, infraestruturas de transportes e portos da região Hauts de France, e o presidente da Câmara de Téteghem, afirmaram que foram recuperados 24 corpos ao largo de Dunquerque, assim como alguns sobreviventes.

O ministro da Administração Interna de França, Gerald Darmanin, confirmou numa publicação na rede Twitter a existência de  muitos mortos, sem referir números e apontando o dedo às redes de traficantes.

Vários migrantes terão conseguido chegar esta quarta-feira às costas de Dover, no sul de Inglaterra, em pequenos barcos, com os serviços de migração a trazê-las para terra. A BBC refere que pelo menos 25 barcos tentaram a travessia nas últimas horas.

A guarda-costeira francesa emitiu um alerta de socorro para 15 pessoas que teriam caído à água de um barco sobrelotado depois de um pescador ter encontrado outros tantos corpos a flutuar, cerca das 13h00 em Lisboa.
"Fazer mais contra os traficantes"
Agências humanitárias apontam o risco do Canal da Macha se tornar um “cemitério” de migrantes, numa altura em que o número de pessoas a tentar atravessar ilegalmente o canal que separa França e o Reino Unido bate recordes.

Pelo menos 10 pessoas terão morrido nas últimas semanas ao fazer a travessia. No início da semana, a ministra britânica da Administração Interna, Priti Patel, considerou “inaceitável” o número de migrantes que têm partido de França.

A deputada eleita pelo Partido Conservador para Dover e Deal, Natalie Elphicke, considerou o incidente desta quarta-feira como uma “absoluta tragédia” que evidencia a necessidade dos barcos serem impedidos de entrar na água.

“À medida que se aproxima o inverno, os mares tornam-se mais turbulentos, a água mais fria, o risco de ainda mais vidas se perderem aumenta”, referiu. “É por isso que impedir estas perigosas travessias é a atitude humanitária a adotar”. Também Boris Johnson considerou as mortes "um desastre", acrescentando ser vital "desmantelar" os gangues de traficantes de pessoas que, afirmou, "estão literalmente a ficar impunes" de homicídios.

Para o primeiro-ministro britânico, o incidente mostra que é preciso fazer mais para impedir os criminosos de organizar as travessias.

"Demonstra como é vital aumentar os nossos esforços para por fim ao modelo de negócio dos gangsters que estão a enviar pessoas para o mar desta forma".

No passado dia 17, os ministros das Administrações Internas de França e do Reino Unido acordaram na necessidade de ser  encontrada uma solução para impedir os migrantes de fazerem a travessia do Canal da Mancha, com a primeira medida a passar pela constituição de um grupo técnico bilateral.
Recorde de travessias
Dados providenciados pelas autoridades francesas indicam que o número de barcos a tentar atravessar o Canal da Mancha em 2021 até aos últimos dias foi quatro vezes superior ao contabilizado em 2019. Nesse ano, 173 barcos foram bem-sucedidos, tendo sido intercetados 130 migrantes.
Segunda-feira foi revelado que o número de migrantes a alcançar o Reino Unido de barco este ano superou mais de três vezes o total registado em 2020. No início do mês, mais de mil chegaram às costas inglesas num único dia – um novo recorde.
Em 2021, mais de 728 barcos com migrantes conseguiram fazer a travessia, tendo sido intercetados mais 820, o que significa que mais de 18.000 pessoas alcançaram as costas inglesas só este ano, concluíram as autoridades francesas.

Também em 2020, o número de barcos que atravessaram o Canal foi elevado, com 641 barcos migrantes a fazerem a travessia e 575 a serem intercetados.
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