Trégua quebrada no Egito, confrontos recomeçam

Após uma breve trégua ao início da tarde manifestantes e polícia anti-motim voltam a enfrentar-se na rua que leva ao ministério do Interior, perto da Praça Tahrir, no Cairo. A tensão mantém-se elevada com muitos jovens manifestantes a vomitarem e a tossirem devido ao gás lacrimogéneo. Outros, feridos por balas de borracha, são levados para os hospitais em motociclos conduzidos por outros manifestantes. O ainda ministro egípcio da saúde reconheceu entretanto que alguns dos mortos dos últimos dias foram atingidos por balas reais.

Graça Andrade Ramos, RTP /
Um manifestante afetado por gás lacrimogéneo nos protestos desta quarta-feira no Cairo, é transportado de mota para um hospital. Khaled Elfiqi, EPA

A trégua desta quarta feira tinha sido negociada por clérigos muçulmanos. O Iman de Al-Azhar, a mais alta instituição islâmica sunita, com sede no Cairo, tinha pedido aos dois lados para suspender a violência.

Numa gravação difundida pela televisão estatal, Ahmed Al-Tayeb apelou "aos chefes da polícia egípcia para darem ordens para que as armas não sejam mais dirigidas aos seus irmãos (os manifestantes)" e às "forças armadas que façam todo o possível para evitar todo o confronto entre irmãos de um mesmo povo".

Membros de Al-Azhar foram nessa altura vistos na Praça Tahrir junto aos manifestantes.

Tanto estes como a polícia suspenderam os confrontos e a televisão mostrou soldados a tomar posição numa cadeia humana, entre os dois grupos. A polícia anti-motim refugiou-se por seu lado dentro do ministério do Interior.

A trégua foi rapidamente quebrada, com a polícia a disparar gás lacrimogéneo e balas de borracha contra os manifestantes que por sua vez atiraram pedras. Não se percebeu quem reiniciou os confrontos.

Corpos com balas fragmentadas
O ministério egípcio da Saúde confirma 35 mortos nos últimos cinco dias mas um grupo egípcio defensor dos direitos humanos fala em 38, 34 dos quais na capital.

A Humans Rights Watch afirma por seu lado que pelo menos 20 dos mortos foram abatidos por fogo real, segundo fontes da morgue do Cairo, embora as forças de segurança neguem estar a usar balas verdadeiras. Há ainda cerca de 2.000 feridos, devido ao gás lacrimogéneo e às balas de borracha.

Este tipo de balas também pode causar ferimentos sérios.

No entanto, num encontro improvisado com jornalistas, esta quarta-feira, o ministro egípcio da Saúde, Amr Helmy, reconheceu que várias das vítimas morreram atingidas por balas reais.

"Foram encontradas balas de fogo em alguns  corpos", disse o ministro e acrescentou que alguns apresentavam mesmo ferimentos de balas fragmentadas, o que pode indicar uso de armas não convencionais. Amr Helmy confirmou que foram abertas investigações em todos os casos.

Eleições em causa
Os confrontos duram desde sábado e são os piores e mais longos desde a revolta do início do ano, contra Hosni Mubarak, que terminou com a demissão do Presidente. Os manifestantes reagem agora contra o domínio do Supremo Conselho das Forças Armadas (SCFA) que substituiu Mubarak e nomeou em Março um governo interino.

Terça-feira, após quatro dias de protestos e do pedido de demissão de todo o gabinete, o Presidente do SCFA, marechal Tantaoui, cedeu às exigências dos manifestantes e prometeu um novo governo interino dentro de dias. Marcou  eleições presidenciais até ao fim de junho e a transferência de poder para as autoridades civis, o mais tardar a um de julho de 2012.

Tantaoui garantiu igualmente a realização das eleições legislativas, com início marcado para a próxima segunda-feira e que deverão durar três meses. A continuação da violência poderá tornar impossível a realização do escrutínio.

Manifestantes não desmobilizam
As promessas de Tantaoui não foram aceites pelos manifestantes que prometem não arredar pé da Praça Tahrir enquanto a junta militar que governa o país se mantiver no poder. Exigem a demissão de Tantaoui e de todos os generais e a sua substituição imediata por uma administração civil interina.

A Irmandade Muçulmana, grande favorita nas próximas eleições tem-se demarcado destes protestos, organizados pelos movimentos seculares egípcios. A Irmandade apelou à não participação dos seus seguidores, mas calcula-se que muitos destes tenham desafiado o pedido e estejam também a manifestar-se na Praça Tahrir

Segundo os manifestantes, os confrontos na rua que leva ao ministério do Interior tentam apenas impedir a intervenção das forças de segurança na Praça Tahrir.
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