Um ano depois dos atentados de novembro: Paris, os franceses e a política

Foram dias que a França não esquecerá. Tudo começou na sexta-feira, dia 13 de novembro, no Stade de France. Seguiram-se os ataques ao Bataclan e às esplanadas de Paris. Morreram 130 pessoas, centenas ficaram feridas. Milhares viram as vidas abaladas, milhões acordaram para uma ameaça que persiste. As feridas saram. Mas não desaparecem.

Paris, 13 de novembro. É sexta-feira à noite na capital francesa, celebra-se a vida nos cafés, restaurantes, salas de concerto e no Stade de France, onde se encontram as seleções da França e da Alemanha. Mas a noite será de horror.

Três grupos de terroristas associados ao Estado Islâmico rasgam a cidade-luz a tiros de metralhadora e explosões dos coletes armadilhados que levam vestidos. Feitas as contas, haverá 130 mortos, cidadãos de várias nacionalidades.

A França assinala agora o primeiro aniversário do mais mortífero atentado em solo gaulês.


1. Ataque à joie de vivre
2. 236 mortos em dois anos
3. Quem ordenou o ataque?
4. O que mudou?
5. As porteiras portuguesas
6. Terrorismo e política



Ataque à joie de vivre

A sucessão de ataques de 13 de novembro faz mais de 350 feridos, 99 dos quais em estado grave. Os atentadps têm início pouco depois das 21h00 locais, eram 20h00 em Lisboa.

Três bombistas suicidas fazem-se explodir nos arredores do Stade de France depois de falharem a entrada no estádio. Os rebentamentos são tão fortes que alguns jogadores param e olham para o ar. As explosões junto ao palco do França – Alemanha acontecem com alguns minutos de intervalo e matam uma pessoa. Entre as explosões, tinham início os restantes ataques.

Estavam em curso as piores ações terroristas que a França jamais enfrentou entre fronteiras. Os ataques são planeados e levados a cabo por pelo menos oito terroristas divididos em três equipas e organizados a partir da Bélgica com cúmplices em França.



Os terroristas investem contra Le Carillon, Le Petit Cambodge, À La Bonne Bière, La Bonne Équipe e Le Comptoir Voltaire. Trinta e nove pessoas morrem nas esplanadas dos bairros parisienses.

Na sala de espetáculos do Bataclan, o assalto dos terroristas interrompe a atuação dos Eagles of Death Metal. Cerca de 1.500 pessoas encontram-se no interior. Morrem 90.

Os dias e semanas seguintes lançam franceses e belgas no encalço de outras possíveis células jihadistas. A 16 de novembro, Saint-Denis é palco de uma vasta operação de combate ao terrorismo. O assalto dura sete horas e são disparadas mais de cinco mil balas.

Abdelhamid Abaaoud, apontado como um dos responsáveis pelos ataques, é abatido nesse mesmo dia. Salah Abdeslam continua em fuga até março de 2016, quando é capturado na Bélgica. É extraditado para França em abril, onde permanece detido. Tem-se mantido em silêncio.

As feridas começam a sarar mas persistem. Pelo menos 20 vítimas dos ataques de novembro continuam hospitalizadas e 600 pessoas continuam a ter acompanhamento psicológico.

Os números oficiais revelam que os atentados de novembro provocaram 130 mortos e mais de 350 feridos. No entanto, o número de afetados é muito superior. Há as famílias, os que não sofreram consequências físicas mas acumulam problemas psicológicos provocados pelo que viram, pelo que viveram, pelo que sentiram.

A secretária de Estado para o Apoio às Vítimas revela que há 1774 “vítimas diretas” dos atentados, tendo sido apresentados 2800 pedidos de indemnização ao Fundo de Garantia das Vítimas de Atos de Terrorismo.



236 mortos em dois anos

Os atentados de novembro são os mais mortíferos de um conjunto alargado de ataques sofridos pelos franceses. Desde 1986, 271 pessoas morreram vítimas de ataques terroristas naquele país. A maioria - 236 - morreram em 2015 e 2016.

O terrorismo tinha já chegado com toda a força no princípio de 2015. A 7 de janeiro, o mundo é surpreendido pelo atentado à redação do jornal satírico Charlie Hebdo.

Um ataque à liberdade de expressão, à vida humana e à democracia que faria mais vítimas nos dias seguintes, com o homicídio de uma agente policial em Montrouge e com a tomada de reféns num supermercado judaico. Dezassete vítimas, três terroristas e um mundo unido por uma só frase: Je suis Charlie.

No domingo, dia 11 de janeiro, dezenas de chefes de Estado participam numa marcha republicana. O terror une personagens tão diversas como o primeiro-ministro israelita e o presidente da Autoridade Palestiniana.

Desde então, porém, a ameaça perdura. Em junho, Yassin Salhi decapita o seu próprio patrão numa fábrica de gás industrial em Saint-Quentin-Fallavier, perto de Lyon. O homem estava já referenciado por alegadas ligações a grupos radicais e acabou por suicidar-se em dezembro de 2015.



Apesar da ameaça persistente, nada tinha preparado a França para os acontecimentos de 13 de novembro. Instaura-se o medo e o pânico e decreta-se o Estado de Emergência.

Em junho, um agente da polícia e a sua companheira são assassinados em casa por Larossi Abbala. Nas redes sociais, o autor dos crimes associa-se ao autoproclamado Estado Islâmico.

A mesma organização terrorista viria a reivindicar em julho o ataque terrorista de Nice. No dia da festa nacional gaulesa, Mohamed Lahouaiej-Bouhlel, conduzindo um veículo pesado, atropela a multidão que tinha acabado de assistir ao fogo-de-artifício na Promenade des Anglais. O ataque provoca 86 mortos e mais de 300 feridos.

A 26 de julho, dois jihadistas atacam uma igreja em Saint-Étienne-du-Rouvray. Um padre é morto pelos terroristas que são posteriormente abatidos pelas forças da ordem.

Em 2015 e 2016, os ataques terroristas em solo francês provocaram 236 vítimas mortais. A este número somam-se ainda milhares de feridos, os que assistiram e ficam psicologicamente afetados e todos os familiares ou amigos atingidos.

Com o aumento do número de afetados, o Governo francês anunciou recentemente um agravamento de 37 por cento da taxa que financia o fundo de garantia que indemniza as vítimas de terrorismo. A questão das indemnizações - a forma como devem ser calculadas e a quem devem ser entregues - mantém-se na ordem do dia.

O tema divide, gera controvérsia e até se fala em concorrência entre vítimas. Em muitos casos, como em Nice, não é fácil definir quem deve ser abrangido pelas indemnizações. O Presidente francês anunciou recentemente que será feita uma reforma do Fundo de Garantia e prometeu transparência no pagamento.



Quem ordenou o ataque?

Fizeram-se buscas, lançaram-se operações. Nove terroristas suicidaram-se ou foram abatidos pelas autoridades. Salah Abdeslam foi capturado na Bélgica, transferido para França. Aquele que foi durante meses o homem mais procurado da Europa recusa-se a falar e pairam ainda dúvidas sobre o papel que teve nos ataques.

Salah Abdeslam não é o único suspeito detido, mas é aquele que motiva as maiores e mais fortes suspeitas e que terá maior grau de implicação nos ataques. Permanecem ainda detidos dois homens que ajudaram Salah Abdeslam a fugir para a Bélgica.

A este grupo juntam-se ainda o argelino Adel Haddadi e o paquistanês Mohamad Usman, suspeitos de terem sido sondados para participar nos atentados. Foram extraditados da Áustria para França no último verão.

Estes dois homens chegaram à Grécia em outubro de 2015, juntamente com os dois bombistas suicidas iraquianos que se fizeram explodir junto ao Stade de France. Um cidadão marroquino, suspeito de estar ligado a Haddadi e Usman, foi detido em setembro na Áustria.

Os atentados de Bruxelas, em março, ajudaram a esclarecer a organização terrorista que se encontrava por detrás dos ataques de novembro. Torna-se evidente que se está perante uma célula organizada, com múltiplas ramificações.

Afinal, a investigação acaba por concluir que os irmãos El Bakraoui, que se fizeram explodir na capital belga, também participaram nos atentados de Paris. Não há duvidas de que Bruxelas e Paris foram provocados pela mesma célula terrorista.

A investigação motiva também a conclusão de que se está perante uma rede muito mais ampla do que inicialmente previsto. As autoridades encontram uma lista de potenciais alvos, onde se incluem La Défense.

Persistem as dúvidas quanto a quem será o líder por detrás da célula, o homem que ordenou e autorizou o ataque. O alegado responsável é Abu Ahmed. Terá sido ele, na véspera dos ataques de Bruxelas, a dar autorização a Najim Lachraoui, um dos terroristas do aeroporto de Zaventem.

A France Presse refere que Abu Amed será um pseudónimo para Oussama Attar, um jihadista belga de 32 anos. Attar passou vários anos no Iraque, tendo mesmo estado detido na prisão de Abu Ghraib.

Acabou por regressar à Bélgica em 2010, tendo beneficiado de uma ampla campanha de mobilização de ativistas e organizações não-governamentais a favor do seu regresso. Voltaria a desaparecer.



"Nada mudou mas tudo mudou"

Em 12 meses a França mudou. O país habituou-se e retomou a vida corrente. O regresso à normalidade sente-se nas esplanadas, um dos palcos da carnificina de 13 de novembro. Renovados, todos estes palcos reabriram e contam novamente com clientela.

“À noite, o bar está cheio, é uma festa!”, conta à France Presse Hélène Lebecque, vizinha do Le Carillon. Naquela trágica noite, 15 pessoas morreram nas esplanadas deste café parisiense e do vizinho Le Petit Cambodge.

“Se não soubéssemos o que aconteceu, não nos daríamos conta de nada”, garante a mulher de 40 anos. É um regresso à normalidade, mas uma normalidade que é agora diferente da que existia antes de 13 de novembro.

Pascal regressa À La Bonne Bière três a quatro vezes por semana. “Aqui, nada mudou mas tudo mudou. Há uma marca que ficará toda a vida”, afirma. O regresso às esplanadas tornou-se uma resposta ao terrorismo, transmitindo a mensagem de que nenhuma guerra mataria o estilo de vida francês.

Nas redes sociais, a hashtag #tousenterrace (todos às esplanadas) convidou os franceses a não cederem ao medo. Nem todos conseguem. Sara regressa frequentemente ao Belle Équipe. Emocionou-se na reabertura, alegra-se de ver o movimento mas evitar ali levar as crianças.


Em estado de emergência


Um ano depois, a França permanece sob o estado de emergência. Um regime que facilita a atuação das autoridades: buscas, colocação de suspeitos em prisão domiciliária, vigilância de locais suspeitos. Nas ruas, continua a ser visível um forte dispositivo policial, que marcou mesmo presença nas afamadas praias francesas durante o verão.

A segurança saiu reforçada também nas escolas, onde as visitas de estudo se tornaram mais escassas. Nos transportes públicos reina a desconfiança. O número de passageiros regressou à normalidade, mas há um ambiente de permanente vigilância.

Os próprios viajantes denunciam casos e indivíduos suspeitos às autoridades. Por dia, na rede dos comboios metropolitano e suburbano de Paris, são denunciados sete pacotes suspeitos, um número 60 por cento superior ao que se verificava antes dos ataques de novembro.

Turismo em queda

Os estrangeiros também se mostram cautelosos, com uma forte queda das visitas turísticas a França. O país continua a ser o principal destino turístico do mundo mas a queda é evidente.

Entre janeiro e outubro de 2016, o número de visitantes estrangeiros caiu 8,1 por cento em relação ao período homólogo. Um número que representa uma forte diminuição, apesar de o país ter sido o palco do Euro 2016.

A Ile-de France, onde se encontra Paris e que é responsável por mais de metade do fluxo turístico, é aquela que apresenta maior queda. Até outubro de 2016, a região recebeu menos 1,8 milhões de turistas. Um número que representa uma perda para a economia francesa de perto de mil milhões de euros.

O Governo francês aposta na promoção da marca mas também na segurança que saiu abalada com os ataques terroristas que aconteceram no país ao longo dos últimos meses. O Executivo de Manuel Valls anunciou recentemente um investimento de 42 milhões de euros para inverter a queda dos números do turismo.

O sector da cultura aparece também fortemente prejudicado pelos ataques de novembro. Ocorreu uma queda pronunciada da procura de espetáculos e venda de bilhetes, nomeadamente os espetáculos infantis tradicionais da época natalícia. O sector vê ainda os custos de segurança aumentar em força.

A França habitua-se a um reforço de segurança que passa a fazer parte do dia a dia. Afinal, o país já está em estado de emergência há um ano. Os gauleses parecem também querer preparar-se para eventuais novos acontecimentos: desde o início do ano, perto de 80 mil pessoas tiraram cursos de socorrismo.



As porteiras portuguesas

Os momentos em que brota o pior da humanidade são também aqueles em que o melhor de alguns sobressai. Em novembro, o mundo emocionou-se com todos aqueles que abriram as portas das suas casas para dar refúgio aos sobreviventes do Bataclan.

A portuguesa Margarida Sousa acolheu no prédio onde trabalha como porteira cerca de 40 pessoas que conseguiram escapar aos terroristas que atacaram a sala de concertos. Um ano depois voltou a abrir a porta à agência Lusa e mantém-se em alerta.

“Não se sabe onde, mas eu penso que isto ainda não está terminado. Mas é claro, temos que trabalhar, continuar a viver e pensar o menos possível”, explica Margarida. Vive em França há 36 anos. Um ano depois, sente o “coração apertado” quando passa junto ao Bataclan.

É a vida que retoma o seu curso, sem esquecer o que aconteceu. O mesmo sentem Manuela e José Gonçalves. Também eles foram condecorados por Marcelo Rebelo de Sousa e François Hollande, também eles deram refúgio aos sobreviventes do Bataclan.

“Levantámos os braços. Já estive desanimado, mas agora já estou a gostar outra vez de Paris, como gostava antigamente de França. Acho que a vida me está outra vez a sorrir”, conta à Lusa a emigrante de Fafe.

Durante muito tempo, o marido José evitou passar junto ao Bataclan, que fica no fundo da rua onde mora. Na casa de banho, permanece o casaco de uma das vítimas que José pretende deitar fora em breve.

A data não será certamente esquecida por nenhum destes portugueses, muito menos para Natália Teixeira Syed. A 13 de novembro, uma pessoa morreu-lhe nos braços.

“Ele não quis que fosse buscar alguém, não queria ficar sozinho. Fiquei com pena porque, ao mesmo tempo, fiquei com ele mas sabia que não podia fazer nada por ele”, recordou na conversa com a Lusa.

Natália continua a marcar presença em restaurantes e até planeia ser “uma das primeiras” a ir ao Bataclan quando a sala voltar a abrir. A lusodescendente, casada com um paquistanês muçulmano, tem medo de represálias e do que pode vir a acontecer.

Para o futuro, até conseguiu autorização de uma empresa ao lado de casa para poder acolher ainda mais pessoas. A 13 de novembro foram 80. No futuro, poderão ser mais de 200.



Terrorismo e política em ano de eleições

Em janeiro de 2015, a França era abalada pelo atentado ao Charlie Hebdo e ao Hyper Casher de Vincennes. A França respondia sob o signo da união, com uma manifestação que unia líderes políticos de todo o mundo em Paris.

Quase dois anos depois, o cenário é outro. A poucos meses das eleições presidenciais, o combate político fortalece-se. O Presidente socialista mantém-se nas ruas da amargura da popularidade, a extrema-direita deverá apurar-se para a segunda volta das presidenciais e candidatos da direita aproximam-se do discurso da Frente Nacional.Os candidatos da direita e da esquerda ainda não são conhecidos. Nicolas Sarkozy e Alain Juppé são os nomes mais prováveis para representar os Republicanos.

A Ifop-Fiducial prevê mesmo que Marine Le Pen seja a mais votada na primeira volta das presidenciais caso Alain Juppé não seja o candidato dos Republicanos.

Em qualquer caso apresentado no barómetro de outubro, a candidata da extrema-direita consegue apurar-se para a segunda volta.



Na segunda ida às urnas, a Ifop prevê uma vitória quer de Nicolas Sarkozy como de Alain Juppé frente a Marine Le Pen. Juppé venceria com 68 por cento dos votos, uma vantagem superior aos 58 por cento que seriam obtidos pelo ex-Presidente Nicolas Sarkozy.

Em queda continua a popularidade do atual Presidente socialista. François Hollande seria mesmo vencido por Marine Le Pen numa pouco provável segunda volta frente à candidata da Frente Nacional.

O confronto político junta-se a uma verdadeira divisão social. Durante o verão, a polémica do burkini marcou o debate político. O papel do Islão gera discussão num país que continua a debater a identidade francesa.



Os números do Ifop revelam que 47 por cento dos franceses vê a comunidade muçulmana como uma ameaça para a identidade gaulesa – mais três pontos percentuais do que em 2015.

Sessenta e três por cento dos franceses consideram que o Islão tem uma influência e visibilidade excessivas no país e 52 por cento apresenta-se contra a construção de mesquitas a pedido dos crentes. Em 2001, apenas 22 por cento se opunha.

Em setembro, Alain Juppé, o mais moderado dos candidatos à primária da direita, alertou para o que classificou de “histeria desproporcionada” que a palavra “muçulmano” desperta em França. O ex-primeiro-ministro deixou o aviso: “Se continuamos assim, caminhamos em direção a uma guerra civil”.

As palavras usadas pela escritora franco-marroquina Leïla Slimani são mais brandas mas igualmente elucidativas. A vencedora do prémio literário Goncourt afirma que, “com o clima que se instalou, os muçulmanos franceses já não se sentem em casa”.

A capital francesa viveu uma noite trágica com vários ataques terroristas em sete diferentes pontos da cidade, onde se contabilizam mais de uma centena de mortos e um número indeterminado de feridos. Hollande decretou o estado de emergência e ordenou o encerramento imediato das fronteiras. Reunimos algumas das imagens que testemunham o clima de pânico e terror vividos. 



Fotografias: Charles Platiau, Christian Hartmann, Pilar Olivares, Eric Gaillard, Philippe Wojazer, Etienne Laurent - Reuters