Mundo
Vitória "histórica". Partido pró-europeu obtém maioria parlamentar na Moldávia
O principal partido pró-europeu da antiga república soviética venceu sem margem para dúvidas as eleições legislativas antecipadas de domingo passado. O PAS, Partido da Ação e Solidariedade, de centro-direita, da Presidente Maia Sandu, obteve 52,80 por cento dos votos.
A vitória dá luz verde à agenda reformista da Presidente, uma ex-economista do Banco Mundial, de 49 anos, eleita em novembro passado, que se viu forçada a convocar em abril o novo escrutínio, face ao bloqueio da oposição parlamentar pró-russa.
Esta colheu aparentemente o que semeou. Uma coligação de socialistas e de comunistas, liderada pelo antigo Presidente apoiado pelo Kremlin, Igor Dodon, ficou num distante segundo lugar com 27,17 por cento dos votos. O PAS obteve 63 dos 101 lugares do Parlamento, anunciou a Comissão Eleitoral, após a contagem completa dos boletins expressos, para um mandato de quatro anos.
Para Vadim Pistrinciuc, diretor executivo do Instituto para as Iniciativas Estratégicas baseado em Chisinau e antigo deputado, o resultado das eleições foi “histórico”.
“Pela primeira vez, um partido pró-europeu assume sozinho a maioria” parlamentar, referiu à Agência France Press, AFP. Se os reformistas fracassarem na mudança prometida a “desilusão será tremenda”, acrescentou.
Os testemunhos dão-lhe razão. Os moldavos esperam que as promessas da ex-economista do Banco Mundial,
de honestidade e competência, se concretizem, trazendo estabilidade e
prosperidade a um país abalado nos últimos anos por uma série de
escândalos de corrupção e de crises políticas.
“Estou contente por termos novos políticos. Espero que façam alguma coisa pelas pessoas e não apenas por si mesmos”, resumiu à AFP Katerina Zhevelik, uma condutora de autocarros de 57 anos.
“Espero que estes não roubem, não apodreçam com o poder, mas se
mantenham pessoas honestas e decentes”, acrescentou Zhevelik em
Chisinau, a capital moldava.
"Fim do domínio de ladrões"
Logo no domingo, com as sondagens à boca das urnas a prenunciar a vitória clara, Sandu saudou a escolha do povo moldavo pela mudança, num país marcado pela pobreza e pela corrupção.
“Espero que hoje seja o fim de uma era difícil para a Moldávia”, afirmou a Presidente. “Espero que hoje seja o fim do domínio de ladrões sobre a Moldávia”.
Dodon não escondeu a desilusão com os resultados. “Naturalmente que queríamos ter tido uma percentagem mais elevada”, referiu em comunicado, no qual cumprimentou os seus rivais.
O líder da oposição advertiu que as suas forças se irão manter atentas, por considerar perigoso que um único partido tenha “o monopólio da política na Moldávia”. Em conferência de imprensa, Dodon reconheceu que “isto é democracia, as pessoas querem mudança”, mas exprimiu preocupação com a capacidade dos reformistas governarem o país de 2.6 milhões de habitantes.
Entalada entre a Ucrânia e a Roménia, membro da União Europeia, a Moldávia expressa a sua situação geográfica nas suas políticas, dividida entre manter boas relações tanto com Bruxelas como com Moscovo.
A corrupção é o maior entrave ao desenvolvimento económico. O país ficou em 115º lugar entre 180 países no índice Perceção da Corrupção 2020 da International Transparency. Um acordo de aproximação com a União Europeia, assinado em 2014, ficou praticamente sem efeito por esse fator e pela inexistência de reformas.
Reação russa
Apesar do apoio expresso pelos moldavos, Sandu não terá a vida fácil, estimam diversos analistas.
“Isto vai ser um teste para ela e para o seu Governo”, referiu à AFP Alexei Tulbure, analista político e antigo enviado da Moldávia às Nações Unidas.
“Este Governo terá de demonstrar rapidamente que é mais eficaz do que o anterior” e implementar as prometidas reformas, acrescentou. Sandu, que já serviu a Moldávia enquanto primeira-ministra, tornou-se para muitos moldavos “um símbolo de mudança”, disse Tulbure.
Também a viragem reformista terá sido sentida em Moscovo, que irá querer impedir a fuga de uma antiga república soviética ao seu raio de influência.
“Mesmo com maioria parlamentar, não será fácil” para Sandu, “implementar os planos grandiosos para uma mudança profunda”, considerou o analista independente Victor Ciobanu. Vai haver “oposição intensa” por parte dos pró-russos, advertiu.
“Se Sandu for bem-sucedida, então será uma indiscutível rutura com a Rússia”, reconheceu Tulbure.
Monitores da OSCE, Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, referiram que a votação foi “competitiva e bem organizada” mas sublinharam “preocupações com a imparcialidade das autoridades eleitorais que prejudica a confiança e com regras inadequadas de financiamento de campanha”.
Os Estados Unidos da América cumprimentaram os vencedores e apelaram a soluções que resolvam as preocupações apontadas pela OSCE.
“Estamos decididos a estreitar os nossos laços com a Moldávia com base nos valores partilhados de democracia e esperamos trabalhar com o novo governo de forma a fortalecer a nossa relação bilateral”, referiu o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Ned Price.
Os Estados Unidos da América cumprimentaram os vencedores e apelaram a soluções que resolvam as preocupações apontadas pela OSCE.
“Estamos decididos a estreitar os nossos laços com a Moldávia com base nos valores partilhados de democracia e esperamos trabalhar com o novo governo de forma a fortalecer a nossa relação bilateral”, referiu o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Ned Price.