Exclusivo RTP. Zelensky afasta negociações diretas com Moscovo e cedências territoriais
Em entrevista exclusiva aos enviados especiais da RTP, Cândida Pinto e David Araújo, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky garantiu que a moral dos soldados se mantém elevada, que o avanço no terreno tem sido constante e que necessita de 160 caças F-16. Afastou ainda qualquer possibilidade de negociar a paz diretamente com Moscovo. E criticou aqueles, que, para conseguirem essa paz, propõem que a Ucrânia ceda território.
"Temos uma posição muito definida e esta posição consta da nossa fórmula de paz, que tem dez parágrafos", explicou Zelensky. "O fim da guerra está previsto após o cumprimento de todos os parágrafos totalmente honestos, justos, que se baseiam na resolução da ONU".
"A guerra é em concreto na Ucrânia, as vítimas são concretamente os ucranianos. Não são os brasileiros, ou outros europeus, nem americanos. São concretamente dezenas de milhares de pessoas, centenas de milhares, que morreram ou ficaram feridas, são as nossas casas que foram atacadas ou bombardeadas, não as casas do Brasil ou de outros países", afirmou Zelensky.
"Hoje temos o acordo relativamente à futura entrega de 50, 60 caças (F-16). Porque digo isso? Porque nos momentos diferentes, teremos uma quantidade diferente de caças", afirmou o Presidente ucraniano à RTP.
"Estamos a combater com a Rússia, estamos a combater pela nossa terra ucraniana, contra a política invasora da Federação Russa. Precisamos de caças meramente para nos defender. Defender a nossa terra, o nosso mar, o nosso céu", garantiu.
Uma das funções da presidência, tal com a entende Zelensky, é manter em alta a moral ucraniana, sobretudo dos soldados que combatem na linha da frente. Muitas famílias foram destroçadas no último ano e meio de guerra, reconheceu. E por isso mostrou-se grato também aos que lutam sem esmorecer.
"A morte de uma pessoa próxima desmotiva. E estou grato aos soldados por isso não ter acontecido. A motivação das forças ucranianas é maior do que a das forças russas. Isso é importante", referiu, dizendo que a motivação ucraniana existe "desde o início" e que "ainda não esmoreceu".
A garantia de apoio na retaguarda é aqui crucial. "Quero chamar a atenção para os veículos médicos blindados para recolher os feridos do campo de batalha. Eles contam que cada um vai para a batalha e mesmo se algo acontecer – que Deus não permita – existirá o veículo específico para o recolher" lembrou, enquanto lamentava ter "falta destes veículos". "Essas coisas desmotivam, é verdade", reconheceu.
Zelensky tem visitado diversas vezes a linha da frente, sobretudo desde o início da última ofensiva para expulsar as tropas russas entrincheiradas. O avanço tem sido difícil mas constante, garante. "Somos nós que estamos a avançar, aos poucos, mas a avançar. Porque estamos na nossa terra. E isso é a motivação maior, temos só a nossa família para trás", afirmou.
Pelo contrário, os russos mobilizados "não sabem por que razão combatem na Ucrânia" e estão desmotivados. Combatem "por medo de não avançar" e do que lhes sucederá se desertarem da frente de combate, interpretou Zelensky.
"A guerra ainda não terminou"
Convite para entrada na NATO poderia "aproximar o fim da guerra", diz Zelensky
Zelensky argumenta mesmo que o próprio convite pode significar uma "aproximação ao fim da guerra", mas que nem todas as partes estão de acordo nesse aspeto.
Já sobre a entrada na União Europeia, o chefe de Estado ucraniano diz que Kiev tem "todas as hipóteses de encetar um diálogo sobre o futuro da Ucrânia na UE ainda este ano".
"A decisão pode ser tomada até ao final do ano" e o processo poderá ser iniciado "a partir do próximo ano".
"Tudo dependerá da boa vontade ou da vontade política dos parceiros europeus, da nossa vontade e das nossas possibilidades", reconheceu.
"A guerra pode terminar ainda este ano"
Zelensky deverá deslocar-se a Portugal: "Vou visitar Portugal, obrigatoriamente"
Medo de perder eleições? "Não tenho medo de nada", responde Zelensky
Recusa a ideia de receio de perder eventuais eleições. "Não tenho medo de nada", vincou. Considera que as eleições devem ser realizadas integralmente no território ucraniano para que os militares, por exemplo, tenham possibilidade de votar.
"Quero que tudo seja feito legalmente e com transparência" tal como em eleições anteriores. "Não quero perder isso", refere.
Zelensky destaca por exemplo a questão dos refugiados que se encontram no estrangeiro. "Devem poder votar com infraestrutura adequada. Não podemos privá-los da sua voz"
Há ainda a questão dos riscos de bombardeamento e da absoluta necessidade de "proteção nos locais de votação".
Questionado sobre se irá concorrer a uma eventual eleição, Zelensky não tem dúvidas: "Em 2024, se a guerra continuar, e se as eleições se realizarem, nunca na minha vida deixarei o meu país".
Em tempo de guerra, riscos de corrupção devem ser resolvidos de "forma muito mais séria do que nos tempos de paz"
Zelensky, sobre o assunto, diz acreditar que "em tempos de guerra, temos de tratar as questões dos riscos de corrupção de uma forma muito mais séria do que nos tempos de paz”.
“Nós devemos respeitar as leis e, por isso, algumas leis devem ser modificadas para o tempo de guerra".
Os riscos são muito altos, lamentou o presidente, argumentando que "as pessoas estão sob pressão com a guerra e nós não podemos arriscar quaisquer momentos, mesmo insignificantes, de corrupção".
"Não devemos arriscar porque as pessoas estão com dificuldades, estão a defender as suas casas, as suas crianças".
Além disso, todo o país está unido para enfrentar a ofensiva russa. “O povo ajuda as forças armadas, presta assistência, partilha as reformas, os salários, guarda isso tudo não para os seus filhos mas para os militares”.
Por isso, qualquer caso de corrupção é um risco "muito grande" e pode levar a que a população desmotive.
"Mas não temos o direito de perder a motivação do povo, do povo da Ucrânia, a fé do povo ucraniano, na Ucrânia e na vitória”. E salientou: "Estes casos, mesmo ínfimos, de corrupção podem ser prejudiciais”.
Por esse motivo, a proposta de Zelensky ao Parlamento “tem de ser eventualmente mais rígida do que em tempos de paz”.
Apesar de reconhecer que a corrupção existe em todo o mundo, o presidente considera que o país não tem o “direito de ter corrupção a qualquer nível”, principalmente em tempos de guerra.
“Não temos esse direito. Caso contrário perderemos a unidade do nosso povo. E isso é muito importante”.
Para Zelensky, a corrupção não pode ser visto como um “problema global” nem justificado por ser uma questão de todo o mundo. E, por isso, o problema deve ser enfrentado e resolvido
Rússia e Prigozhin. "O mundo civilizado percebeu que a palavra de Putin não vale nada", refere Zelensky
Zelensky argumenta ainda que o caso Prigozhin demonstra o resultado de uma negociação com a Putin, o que vai ao encontro dos constantes avisos de Kiev em como o presidente russo "não respeita a sua palavra".
Zelensky recusa negociações diretas com Moscovo
"Temos uma posição muito definida e esta posição consta da nossa fórmula de paz, que tem dez parágrafos. O fim da guerra está previsto após o cumprimento de todos os parágrafos totalmente honestos, justos, que se baseiam na resolução da ONU"
Zelensky sublinha ainda que a Rússia "deve abandonar" o território ucraniano e os assassinos "devem ser punidos".
"Todo o mundo devia ter pressionado" a Rússia sobre acordo de cereais
"Temos boas relações desde o início, o secretário-geral ajudava muito, foi muito difícil porque tudo estava bloqueado".
Infelizmente, continuou o chefe de Estado ucraniano, António Guterres e o presidente turco "não conseguiram pressionar a Rússia relativamente à livre navegação". Mas na sua opinião, "todo o mundo devia ter pressionado".
"Conseguiram convencê-la só na área dos cereais, mas penso que existem muito mais produtos, áreas de produção diferentes que também têm grande défice no mundo. E devem ser transportados livremente".
Zelensky frisou então que ameaçar "apenas retoricamente" a Rússia, quando esta avança com os bloqueios de exportação, não é suficiente.
"Poucos países conseguiram influenciar a Federação Russa, apesar da ONU ter mecanismos e bastantes países que podiam ter exercido essa pressão sobre a Rússia", continuou, esclerecendo que Moscovo quis "mensalmente sair desta iniciativa, travava-a constantemente, introduzia verificações adicionais, fazia bloqueios e filas no mar. … A Rússia queria sempre verificar algo… fazia sempre dumping de preços na produção agrícola".
"Estamos numa situação em que o corredor de cereais entre nós, a Turquia e a ONU continua a existir, mas entre a Rússia e os colegas não funciona".
Sobre a posição do Brasil, Zelensky diz: "É necessário perceber quem é a vítima e quem é o agressor"
"São as nossas casas que foram atacadas e bombardeadas. Não as casas do Brasil ou outros países. Graças a Deus, nós não queremos uma guerra no Brasil ou em qualquer outro país", acrescenta.
Mas, sublinha, "é necessário perceber quem é a vítima e quem é o agressor".
Zelensky recusa ainda quaisquer propostas que tenham por base "a cedência de alguma parte do nosso território".
Zelensky quer Portugal como ponte para África e América Latina
"O apoio político de Portugal é muito importante"
"Hoje, o domínio da Rússia no céu é absoluto, reconhecemos isso"
"Hoje, o domínio da Rússia no céu é absoluto, reconhecemos isso, sabemos que a Rússia tem mais armas deste tipo, tem muito mais aviões, mais drones, mais equipamentos de defesa antiaérea. Nós já temos os equipamentos de defesa antiaérea de padrão ocidental, mas a Rússia tem muito mais equipamentos, ainda soviéticos mas em muito grande quantidade", reconhece Zelensky.
"As pessoas estão motivadas para ficar no terreno porque têm medo de serem mortas"
Motivação das forças ucranianas garantem progressos na contraofensiva
"Estou grato porque eles não perderam a motivação, uma vez que a guerra já está em curso há mais de um dia, há mais de um mês e infelizmente, devemos constatar, há mais de um ano", continuou, relembrando que há "muitas pessoas mortas, feridas, que estiveram juntas com os rapazes e raparigas que hoje continuam a defender o país".
"Em qualquer caso, a morte de uma pessoa próxima desmotiva", quis frisar. "E estou grato aos soldados por isso não ter acontecido. A motivação das forças ucranianas é maior do que a das forças russas. Isso é importante".
Segundo o presidente ucraniano, a motivação dos soldados "existiu desde o início" e tem aumentado. Contudo, Zelensky afirmou que as forças ucranianas não têm veículos "médicos blindados para recolher os feridos do campo de batalha".
"Essas coisas desmotivam, é verdade".
F16 vão poder combater na Ucrânia "no início do próximo ano"
"Precisamos de cerca de 160 caças"
"Hoje temos o acordo relativamente à futura entrega de 50, 60 caças. Porque digo isso? Porque nos momentos diferentes, teremos uma quantidade diferente de caças. Não virão todos ao mesmo tempo. Na totalidade precisamos de cerca de 160 caças para ter uma força aérea poderosa que não dê a possibilidade à Rússia de dominar o espaço", explicitou.
Esses caças serão necessários "não para a contraofensiva, mas sublinho isso mais uma vez, porque sabe como a informação está divulgada e muitas vezes corrigida pela Rússia a seu favor".
"Precisamos de caças meramente para nos defender. Defender a nossa terra, o nosso mar, o nosso céu", acrescentou.
Entrevista RTP. Zelensky não esconde irritação com Lula da Silva
O presidente da Ucrânia critica Lula da Silva e recusa aceitar propostas de paz que impliquem cedência de território. Volodymyr Zelensky não esconde a irritação com o presidente brasileiro e deixa claro também que todos os que querem o fim da guerra têm que perceber quem é a vítima e quem é o agressor.
Entrevista RTP. Zelensky pede mais F16 para defesa da Ucrânia
Volodymyr Zelensky não esconde irritação com Lula da Silva nas posições tomadas pelo Brasil sobre a guerra da Ucrânia. Em entrevista exclusiva à RTP diz também que não conta com os F16 nesta fase da contra-ofensiva mas precisa da cerca de mais 160 aviões de combate para defender a Ucrânia a partir do próximo ano.
Brasil. Presidência "respeita" declarações de Zelensky
A Presidência brasileira diz que respeita as declarações do presidente Zelensky e não as considera críticas porque sempre condenou a invasão do território ucraniano.
O presidente de Ucrânia conversou em Kiev com os enviados especiais da RTP Cândida Pinto e David Araújo.
A análise de Cândida Pinto à entrevista a Zelensky
A crítica de Zelensky a Lula da Silva é o reconhecimento de que não conseguiu algo que pretendia, que era o apoio do Brasil para a causa ucraniana. Para o presidente ucraniano, o seu homólogo brasileiro é "um irritante".
Em relação a Portugal, Zelensky sabe que o país não é uma potência militar e não tem capacidade para enviar F-16, apesar de participar no treino dos pilotos. No entanto, "pode ser importante a nível diplomático, uma vez um abrangente leque de relações diplomáticas".
O presidente ucraniano tem esperança que as "autoridades portuguesas possam ser veículos de influência junto das áreas que falam português".
"Os países africanos que falam português são importantes". Zelensky, que quer realizar uma cimeira para a paz, espera ainda "alguns esforços, por parte de Portugal, para falar com o Brasil".
Os enviados da RTP à Ucrânia encontraram um homem "desgastado por um ano e meio de guerra". Contudo, "mantém a sua boa disposição e é afável".
A entrevista de segunda-feira foi "rodeada por fortes medidas de segurança, uma vez que Zelensky tem a cabeça a prémio".
"É um homem com uma agenda compacta e com reuniões sucessivas, num país que está em guerra".
Entrevista à RTP. Zelensky com duras críticas a Lula da Silva
Na entrevista exclusiva à RTP, o presidente da Ucrânia critica o presidente do Brasil, Lula da Silva, e diz que não pode aceitar propostas de paz que impliquem cedência de território.
Foto: Ritzau Scanpix/Thomas Traasdahl via Reuters
O presidente de Ucrânia conversou em Kiev com os enviados especiais da RTP Cândida Pinto e David Araújo.
"Gostei imenso" de Marcelo, diz Zelensky
O presidente ucraniano afirma ter gostado muito de Marcelo Rebelo de Sousa. Uma convicção feita por Volodymyr Zelensky, numa entrevista exclusiva à RTP, em que elogia o esforço do presidente português quando na semana passada, na cerimónia do dia da independência, falou em ucraniano em Kiev - ainda que com sotaque - refere.
Foto: Oleg Petrasyuk/Pool via REUTERS
A entrevista com o presidente ucraniano Volodymir Zelensky pode ser vista na integra esta terça-feira na RTP1 e na RTP 3, depois do Telejornal.
Exclusivo à RTP. Zelensky elogia Marcelo pelo esforço de falar em ucraniano
Em entrevista exclusiva de Volodymir Zelensky à RTP, o presidente da Ucrânia revela o estado da guerra após um ano e meio e do que precisa para vencer a invasão russa.
Oleg Petrasyuk/Pool via Reuters