António Esteves

A loucura do caos

Ainda vamos ter de esperar alguns meses, talvez um ano ou mais, até que se perceba o que realmente aconteceu no verdadeiro inferno em que se tornou a estrada 236-1, apelidada de forma cruel de estrada da morte. Há muitas pessoas que até agora ainda não falaram, não contaram o que sabem, o que viram e o que ouviram contar de fontes fidedignas - embora comece a ser cada vez mais difícil perceber quais são -, e é dessas pequenas histórias que se vai contar a real fita do tempo desta tragédia, com falhas que nunca vão ser esclarecidas porque a área afectada é muito vasta e porque há coisas que de facto ninguém testemunhou. Desde logo a origem do fogo. Como começou? Como se propagou tão depressa? De que forma evoluiu?

A primeira grande dúvida que provoca uma enorme perplexidade tem a ver com o facto da estrada não ter sido fechada à circulação. Porquê? Porque o fogo evoluiu tão depressa que ninguém deu conta da dimensão que tomou e do enorme risco em que se transformou o incêndio para populações e automobilistas? Se assim foi está explicado. A culpa é da meteorologia mas com uma ajuda preciosa da natureza de que não se cuida devidamente. O mato que não devia lá estar e que serviu de combustível é um velho problema do país que não tem uma solução à vista, porque ninguém quer limpar, nem os proprietários nem o Estado, e porque ninguém quer entrar nos domínios da violação da propriedade privada ainda que justificada pela situação de emergência provocada por termos um país que é um verdadeiro barril de pólvora florestal.

A estrada não foi cortada porque não havia agentes suficientes ao serviço? Dizem que devia haver 30 efectivos na zona, que há apenas 15 e que nesse dia estavam apenas três ao serviço e apenas dois em patrulha. Bom, mas neste caso teria de haver um alerta, um pedido de ajuda, a solicitação de reforços, o encaminhar de responsabilidades para a Protecção Civil. Seja como for, há já uma evidência, a falha do SIRESP - o Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal - durante um longo período de tempo em Pedrógão Grande e várias vezes em outras emergências, mostra que o sistema não serve para nada, mas também sabemos que não podemos viver a vida inteira a recorrer aos sistemas de redundância que são apenas um improvido que ajuda nas emergências quando o sistema-mãe falha. Que seja substituído com a maior urgência, e que se apure porque foi adoptado, por quem, por quê, e quanto custou.

A terceira hipótese é a pior de todas. Ninguém encaminha pessoas para a morte de forma deliberada, mas pode avaliar mal o risco e tomar uma decisão leviana. Acontece a todos nós, mas neste caso o que aconteceu foi a morte de 47 pessoas, devoradas pelas chamas num horror difícil de imaginar. É preciso saber se houve negligência.

No meio desta tragédia, devorados pela pressão, todos nós cometemos erros crassos, os governantes, as autoridades, os jornalistas e os cidadãos. Ser cidadão é uma grande responsabilidade, e muitos dos que foram incendiar as redes sociais criticando erros que ainda não se sabe que o são, e outros que aconteceram mas que ninguém procurou saber as razões, são os mesmos que fazem pior, lançando boatos, falsos factos e juízos precipitados. As mesmas coisas que criticam, como se os cidadãos pudessem ser considerados inimputáveis. Não podem. Pelo meio não faltam os jornalistas que acusam os colegas de preguiça enquanto estão refastelados nos sofás a escrever nas redes sociais e, pior, os jornalistas que fingem nunca terem sido jornalistas e que não conhecem as reais dificuldades da profissão quando se está no terreno. Provavelmente não conhecem mesmo.

Já tivemos de tudo nesta loucura do caos. Falsas mortes que não se verificaram, acusações de estar a ser escondido os real balanço do número de vítimas sem que nenhum facto o justifique, um avião Canadair que afinal não caiu – felizmente - quando tudo apontava para a queda - neste caso o erro foi não ter colocado a informação no condicional porque de facto todos os dados apontavam para a queda do aparelho numa história digna do enredo de um filme -, um jornalista português que afinal não existe enquanto tal e que não passa de um pseudónimo num jornal espanhol - pode ser qualquer pessoa, sem ser sequer um jornalista e sem ser português - e pessoas que se suicidaram mas que afinal estão vivas mas que pelos vistos terão tentado encontrar a morte mas felizmente falharam. Mesmo isto não está confirmado.

O aproveitamento político das tragédias é uma coisa antiga que sempre provocou repulsa. É dos livros e do bom senso humano, nas tragédias estamos juntos, a sofrer e a ajudar e não se apontam culpas, muito menos sem factos concretos. Ninguém valoriza o apontar de dedo oportunista e despropositado. Ainda que tivesse havido suicídios, ninguém poderia dizer que foi por desespero pela falta de ajuda psicológica. Qualquer pessoa que tenha lidado de perto com o fenómeno sabe que as pessoas se suicidam pelas mais diversas razões, muitas vezes de surpresa e em casos que estão a ter todo o tipo de acompanhamento, e próximo, das mais diversidades entidades: famílias, amigos, psicólogos. As pessoas suicidam-se muitas vezes por questões neurológicas, problemas mentais tantas vezes desconhecidos e choques emocionais profundos. É difícil dizer porquê, muito menos que alguém tenha contribuído de forma decisiva para isso. Mas obviamente que esta é uma questão decisiva e devia ter sido colocada da forma certa: as pessoas que sofreram um choque emocional profundo com esta tragédia têm de ser acompanhadas, de perto e de forma profissional, por psicólogos e psiquiatras para evitar que as sequelas perdurem no tempo e possam vir a dar origem a novas tragédias.

Por último, há ilações políticas a tirar quando se apurarem responsabilidades - ainda que Jorge Coelho em Entre-os-Rios, e outras pessoas em várias ocasiões, tenham assumido de imediato a responsabilidade e apresentado a demissão. Os mesmos que elogiaram Jorge Coelho como um bom exemplo do que é estar na vida com valores socialistas são agora os mesmos que defendem a ministra da Administração Interna com unhas e dentes. Pouco preocupados verdadeiramente com a sorte da ministra mas temendo que uma eventual demissão possa colocar em causa o equilíbrio instável da geringonça. Essa sim, a real preocupação de alguns dos que puxam sempre dos valores socialistas quando convém.

António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa tiveram uma postura correcta perante os acontecimentos. Com uma resposta rápida, apoio imediato às populações nos locais, pedindo explicações e exigindo responsabilidades, mas precipitaram-se quando entenderam, cedo demais, sem informações e sem as explicações que tinham pedido, que tinha sido feito tudo o que devia. Será? Esperamos pelas próximas semanas para saber. A política de comunicação desta tragédia foi também ela um desastre.

Uma coisa é certa, não há ninguém impune nesta tragédia, muito menos a classe política, mesmo a que agora rasga as vestes de indignação e que finge que não tem responsabilidades.

Há mais de 30 anos que a floresta é um problema não resolvido que se veio agravando aos poucos. Não se ordenou o território em geral e a floresta em particular, não se apostou na limpeza das matas e na prevenção e sensibilização das populações, não se apostou na responsabilização, identificação e punição dos proprietários infratores, promoveu-se uma política que só apostou no negócio milionário do combate aos fogos sem cuidar de dar meios suficientes e condições dignas aos bombeiros, promoveu-se uma politica florestal suicida com uma aposta desenfreada em pinheiros e eucaliptos, sem que tenha havido o cuidado de plantar também castanheiros, azinheiras e sobreiros, abrir aceiros e linhas de água.

Há leis que não são cumpridas, e outras que faltam, outras existem e não são aprovadas por birras partidárias e outras que não estão feitas e já deviam estar. E a culpa é de quem? Dos políticos. De todos os que lá estiveram nos últimos 30 anos na tutela desta área tão sensível.

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