Jornalistas e jornaleiros

"Notícia é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade" - William Randolph Hearst (frase atribuída de forma errada a George Orwell).

Não sou nada adepto do "no meu tempo é que era", até porque este ainda é o meu tempo mesmo que muitas vezes não me sinta confortável nele. Também raramente digo, "há uns anos é que era bom" como se agora fosse tudo mau. Mas de facto o jornalismo teve tantas e tantas mutações ao longo dos anos que nos dias de hoje ser jornalista, dos duros - ética e deontologicamente falando -, é tão difícil que vão faltando a muitos desses verdadeiros jornalistas as forças suficientes para continuarem. 


Há uma legião de excelentes profissionais que está desempregada ou que simplesmente desistiu da profissão e se adaptou a outras variantes, assessoria por exemplo. Há outros que continuam cá mas desistiram de seguir os cânones mais rigorosos da arte de fazer notícias, e outros que se adaptaram à nova realidade ainda que por caminhos ínvios. Há os resistentes, felizmente ainda bastantes, que seguem as velhas máximas e os códigos de ética e deontologia, enfrentando todas as resistências e pressões e tentando ensinar os poucos que ainda demonstram real vontade de aprender.

Quando cheguei ao jornalismo, na TSF depois da Rádio Nova Antena e Rádio Orbital, os mais novos eram recebidos e integrados, eram acompanhados com regularidade e monitorizados em permanência. "Levavam na cabeça à séria" quando faziam asneira e não tugiam nem mugiam. Era impensável que alguém amuasse ou respondesse de forma menos educada a um sénior. Os mais novos ouviam com respeito e humildade na esperança de melhorarem rapidamente e evitarem uma nova “rabecada”. 

Só representavam a empresa "em antena", ou "em papel" nos caso dos jornais, quando tinham atingido um nível de qualidade tal que pudessem fazê-lo sem exporem os colegas e a entidade que representavam, porque assinar uma peça, reportagem ou directo era uma coisa de grande responsabilidade. Não se procurava a fama pela fama, procurava-se a excelência e o rigor, porque todos os que procuravam fama eram normalmente ostracizados pela tribo e acabavam por sair mal de uma experiência que se revelava na maioria dos casos mais curta do que desejavam. 

Os mais velhos pediam aos mais novos para lhes reverem os textos porque existia aquela máxima de que "dois olhos a mais são mais olhos a ver" e o erro tinha mais dificuldades em passar. E a humildade não era apenas exigida aos mais novos. Havia vagas na profissão, mais admissões e menos despedimentos, e por isso menos receio nas redacções. O receio pelo posto de trabalho traz o medo e a submissão e acaba por provocar o domínio de gente fraca sobre grandes profissionais.

O espaço de opinião era delimitado e as notícias não tinham frases nem títulos manhosos com clara intenção e orientação ideológica. Havia menos promiscuidade entre políticos e jornalistas e dificilmente seria possível existir uma lista de gente paga para escrever notícias favoráveis, como parece que existe embora até hoje nunca tenha sido divulgada.

Hoje navegamos em águas alterosas e num mar de receios pelo futuro e atropelos no presente. Nunca a profissão foi tão pouco exigente e nunca foi tão fácil fazer mal sem consequências. Falta noção e vontade, falta coragem e ousadia. Faltará tempo e muitas vezes oportunidade. Os tempos são difíceis e permitem que gente sem qualidade chegue a lugares de topo. Porque o mérito e a qualidade deram lugar a muitos dos que são subservientes e obedientes, e porque muitos sos que enfrentam a nova realidade são afastados, ameaçados e perseguidos. Ou pelo menos anulados.  Obviamente que há excepções, mas mesmo assim temo pelo futuro daquela que muitos já consideraram uma das profissões com mais poder na nossa realidade actual.

Fico pasmado quando vejo a fácil dicotomia entre bom e mau jornalismo, como se o jornalismo pudesse ser mau. É coisa que não existe. O jornalismo é bom por definição: rigoroso, isento, sério, credível, objectivo, corajoso. Há pessoas que morrem pelo direito a informar, como é que há pessoas que se acham no direito de conspurcar esta profissão admitindo que pode ser de menor qualidade, com cedências a poderes sejam eles quais forem?

Não concordo com a citação de William Randolph Hearst, embora erradamente atribuída a George Orwell por ter aparecido na boca de um dos personagens de um dos seus livros, de que "Notícia é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade". Percebo o sentido que o exagero tenta representar, mas obviamente que notícia é muito mais do que isto.

Meus caros, lamento, mas em cada redacção há cada vez menos jornalistas e mais "jornaleiros" ainda que a maioria seja gente de qualidade, resta-nos isso. E as boas lideranças não são a regra geral, mas felizmente que ainda existem algumas de referência. Será resultado dos tempos que enfrentamos, de crise económica e de receio em relação aos postos de trabalho por falta de opções válidas, mas é uma situação que coloca em causa o futuro do jornalismo em Portugal. 

Pensem nisto quando forem reclamar uma carteira profissional.

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