Foi com discursos semelhantes que nasceu o nazismo na Alemanha e o fascismo em Itália e foi com palavras absurdas e extremistas como as que ele profere que se mobilizaram algumas das pessoas que cometeram alguns dos maiores crimes da história.
"Este é um país em que as prostitutas gozam, os
traficantes cheiram e em que um carro usado vale mais que um carro novo.
É ou não é um país de cabeça para baixo?" - Tom Jobim
Bolsonaro é perigoso e será muito em breve uma grande preocupação do país, quando se perceber que alimenta ódios e extremismos que podem levar a actos irreflectidos e graves de alguns loucos animados pelo clima de caos, ou que tem mais seguidores do que aquilo que à primeira vista parece. Creio que não me engano.
O Brasil tem um povo fantástico, gente alegre, bem disposta, que vive com pouco ao som do Samba e à espera do Carnaval, e que tem uma oferta turística cada vez mais diversificada e de grande qualidade. Será uma visão caricatural e simplista mas que serve de perfil a traço grosso de um país a braços com uma crise económica que tende a agravar-se, com baixas perspetivas de crescimento e de investimento internacional muito por culpa da falta de confiança que foi gerando e da falta de clima para fazer negócios, com elevados e preocupantes índices de criminalidade, com uma legião de pobres e miseráveis que tenta sobreviver a cada dia e uma classe média-alta barricada em condomínios de luxo murados e cheios de grades, vigiados durante 24 horas.
O Brasil vai registar uma contração do PIB de 3,8% em 2016. O país sofre com a desaceleração da economia chinesa, para onde envia cerca de 40% da exploração mineira, e com a redução dos preços da matérias-primas. Sofre com o desemprego e com a falta de esperança para os tempos mais próximos.
O povo brasileiro é um povo bondoso, alegre e divertido, afável e tranquilo, mas pouco exigente em quase todos os aspectos da sua vivência diária e isso reflecte-se na escolha da classe política. Péssima. Gente dominada pelas máquinas partidárias que são dominadas por interesses económicos e que compram quase tudo, incluindo alguns agentes judiciais. Os casos do Petrolão, do Mensalão e do Lava Jato mostram a podridão do sistema político, económico e judicial de um país, onde tudo se compra e quase todos os que ocupam lugares de destaque parecem dispostos a vender-se.
O Brasil está numa encruzilhada. A estrutura que suporta o país está podre e a classe política sem credibilidade. Os que investigam são eles próprios investigados, os partidos ameaçam ganhar nas ruas o que estão a perder nos bastidores e ainda não sabemos o que aí vem nos processos que ainda estão a ser investigados. A insegurança que parece ter passado para segundo plano é uma grande preocupação nacional e quando as perspectivas económicas se degradarem ainda mais será o povo, já tão martirizado pela pobreza, que vai pagar essa factura. Mais uma.
Os militares ainda não se pronunciaram. Mas estão atentos. E se for caso disso não vão hesitar em tomar as rédeas do país se chegarem à conclusão de que se tornou ingovernável. O que já parece evidente. A última vez que os militares ocuparam o poder estiveram lá 21 anos, entre 1964 e 1985. A garantia dada no início apontava para uma passagem breve que acabou por durar mais de duas décadas que não deixam boas memórias. Foi a época em que a palavra liberdade era proibida, em que desapareceram alguns direitos conquistados em democracia e foi o tempo das prisões arbitrárias, em que a Polícia Militar e o Exército podiam prender pessoas por meras suspeitas e que em muitos casos eram brutalmente torturadas. Foi o tempo em que muitos optaram pelo exílio, fugindo de um país que censurava a comunicação social. O regime democrático só foi restabelecido depois do falhanço do milagre económico dos anos 70, quando muitos caíram na pobreza e o país assistia a níveis galopantes de uma inflação incontrolável. Agora, o caminho tem tudo para ser feito ao contrário.
Os militares estão atentos e, se entrarem, tenham uma certeza: não vão sair tão depressa da liderança do país. Jair Bolsonaro não é apenas político. É um militar na reserva. Acreditar que faz estes discursos inflamados de forma irresponsável, sem respaldo de muitos dos seus pares, é dar espaço a que o Brasil possa voltar em breve a tempos ainda mais conturbados, duros e preocupantes. O maior país da América Latina e um dos mais populosos do mundo entraria num clima de guerra civil, em que os traficantes optariam por estabelecer um Estado quase paralelo e o povo iria sofrer ainda mais, cercado por duas realidades que seriam péssimas opções. Parece um filme de ficção, mas pode já estar escrito.
opinião
António Esteves
O Brasil não é um país para principiantes
O Brasil é um dos melhores países do mundo mas governado por alguns dos piores políticos de que há memória. Jair Bolsonaro será eventualmente o pior exemplo de todos. Um cretino com tempo de antena e que diz coisas inimagináveis. Declarações que em qualquer outro país poderiam até levá-lo à prisão. No Brasil levam-no à televisão e às primeiras páginas do jornais e por incrível que pareça tem seguidores.