As minhas bochechas e as de Mário Soares

“Que ricas bochechinhas! São mesmo iguais às do Soares”.Detestava q ue o fizessem. Ainda não tinha tido tempo para erguer o sobrolho e ver a cara do atrevido, já a minha face direita estava apertada entre o polegar e o indicador de um estranho, de um familiar ou amigo dos meus pais que insistia na piadinha.

Aos 7/8 anos, era fatal. Ficava furiosa. Comecei a responder, a dizer que nada tinha a ver com esse “Márinho”, tal como a avó Lurdes carinhosamente lhe chamava, não entendia como podiam comparar-me a um homem que eu nem sabia quem era. Ainda mais… bochechudo.

Cresci a ouvir a mesma frase e a mesma pressão na face, que insistentemente abanavam como um leque. Em casa da minha avó Lurdes, no Fundão, o tacho quase queimava ao lume quando o “Márinho” aparecia na televisão. “Gosto dele”, dizia ela, enquanto lhe elogiava as bochechas e a generosidade do discurso “sem papas na língua”.

O tempo foi passando e eu já não detestava a comparação. Comecei por achar-lhe graça, depois passei a ser a autora da graçola, que ainda hoje repito. Tenho bochechas à Mário Soares, é de família, mas não da dele. São descaídas, fora do sítio. Fartas, generosas. Bochechas sem vergonha, atrevidas, ávidas de aventura fora da cara. Os vaidosos tentam diminuir as bochechas, aumentar as “maças do rosto”. Os bochechudos preferem dois pomares rosados ao lado do sorriso, um prolongamento que acentua a satisfação ou a reprovação, numa vida que só se quer intensa. É assim que as entendo. Desafiantes, a saltarem-me do rosto, a acentuarem o que sinto de bom e o que me entristece. Denunciam-nos. São umas malvadas.

Recordo-me da primeira vez que o entrevistei. Foi na casa-museu João Soares, na freguesia de Cortes, Leiria. Falou-me do pai, do exílio, do regresso e chegada a Santa Apolónia, da adesão de Portugal à CEE… Eu, que toda a minha vida, 21 anos, tinha ouvido falar de Soares e das bochechas iguais às minhas, tremia. Era jornalista estagiária, ambicionava uma carreira no Jornalismo, entrevistar Mário Soares era um passo de gigante para um caminho que apenas começava a esboçar-se. Não lhe falei das minhas bochechas, mas sorri ao olhar as dele.

A avó Lurdes contou às amigas. Viu e reviu a entrevista a Soares. Acho que tinha um “fraquinho” por ele. Um fraco, entenda-se, pela irreverência, pela língua e espírito aguçados, pela alma que lhe corria solta, sem amarras.

Desde esse dia cruzámo-nos dezenas de vezes. Entrevistas, lançamentos de livros, encontros ocasionais, conversas furtuitas à porta da Fundação, enquanto se esperava pelo convidado do dia e pelo primeiro REC na câmara de reportagem.

Dos fracos não reza a história e, como todas as figuras marcantes, Mário Soares tanto gerou admiração como semeou ódios de estimação. De uma coisa todos podem ter a certeza, já ninguém o apaga da Estória da democracia e da liberdade em Portugal. Sei que se não fosse ele, e outros como ele, hoje não poderia escrever estas linhas, ser a jornalista, a mulher que sou.

Quando comecei este texto de opinião jurei que não iria comentar os “críticos” que, no último mês, lhe desejaram a morte e prenunciaram um fim sem memória, sem espaço ao elogio, ao percurso de uma existência que nunca se preocupou em agradar aos outros, nunca se vergou a opiniões alheias. Soares não teve medo de viver. Morreu a saber o que diziam dele, apesar de muitos só terem tido a coragem de escrever, debaixo do manto das redes sociais, quando Soares já não os podia ouvir.

A minha avó Lurdes partiu há quase um ano e meio. Não preciso de estímulos para a recordar constantemente, mas sempre que via Soares, sorria e lembrava-me dela.

Se o encontrares por aí, avó, porque acredito que estás num plano muito superior ao nosso, aproveita agora para lhe apertares a bochecha e dizer que é igual à minha.

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