Daniela Santiago

Gostava de saber de ti…

Colei os olhos aos teus assim que te vi. Acho que se cruzaram. O teu olhar seguiu em frente, assustado, surpreendido por aquele colo que não te era nada. O meu olhar? Continuou mergulhado nesses olhos pequeninos castanhos que, dificilmente, vão afogar-se nas memórias de 43 anos de vida. Não tens mais de dois, vividos neste mundo de abismos. Atravessaste o Estreito de Gibraltar ao colo de uma estranha, no meio de 70 homens. Partiste nos braços de outro estranho… o que é feito de ti?

“Está lá dentro uma criança! É uma menina, não deve ter mais de dois ou três anos”. O militar da Guardia Civil tem uma máscara na cara. Tapa-lhe a boca, a expressão, abafa-lhe a voz grave, as parcas palavras. Aparentemente, também o distancia daquelas sete dezenas de vidas, a juntar a tantas centenas, intercetadas quando a embarcação de madeira quase tocava areia da costa de Barbate. São todos magrebinos. Todos homens, quase metade tem menos de 18 anos.

Exceção para a menina, que continua no convés da embarcação do Salvamento Marítimo, e para a mulher que a “transporta”. Assim, que o levante amainou fizeram-se ao caminho. Só nos primeiros seis meses deste ano, já tentaram cruzar o Estreito de Gibraltar mais pessoas do que em todo o ano passado. Em junho e julho foram 2.000. Desde janeiro 6.000 foram resgatadas das águas, daqueles 14 km que separam África do “El Dorado” europeu, transformados agora numa vala comum, numa gigantesca fossa de vergonha para todos nós, europeus.

A APDHA, a Associação Pró Direitos Humanos da Andaluzia, assegura que nos últimos dez anos perderam a vida no Estreito 6.000 pessoas. Corrijo: foram encontrados 6.000 corpos, porque cada vez que é detetado um cadáver, dizem os especialistas, há outros dois que desaparecem. Contas feitas: desde 2006 morreram cerca de 18.000 subsaarianos e magrebinos no Estreito. Alguém chorou uma lágrima por eles? As ONG no terreno garantem que não.

As populações estão fartas dos corpos desmembrados que aparecem nas praias. Os elementos do Salvamento Marítimo, Guardia Civil, Polícia Nacional, Cruz Vermelha estão esgotados, física e psicologicamente. Os alertas sucedem-se dia após dia, noite após noite. No parlamento espanhol, no Congresso dos Deputados, em Madrid, longe do cheiro a maresia, dos gritos abafados pelo sopro do vento e da agitação da maré, dos restos de embarcações e de corpos, o Ministro do Interior, Juan Ignacio Zoido, lava as mãos e a alma.

Diz que Espanha não tem culpa que os imigrantes se lancem ao mar. Como se Espanha, como se a Europa não tivessem culpas no cartório, responsabilidades num passado não muito longínquo, onde apenas interessou explorar, tirar e quase nada deixar às populações que já lá viviam.

Só quem esteve no Sahel, na faixa semidesértica que vai de Dakar ao Sahara, sabe, entende, percebe por que razão fogem eles de lá. Por que razão é melhor uma morte incerta a uma existência que não vale a pena ser vivida. Eu estive lá. Sei do que falo. Há mais de uma década que morrem milhares na rota pelo deserto, rumo à Líbia, ou no mar, a caminho das Canárias, da Andaluzia.

Aos poucos, três a três, a começar pelos mais jovens, saem da embarcação. Vêm descalços, com a roupa colada ao corpo, da água e do suor. Entram diretamente numa tenda de campanha da Cruz Vermelha Espanhola onde se despem por completo. Qualquer recordação da vida que deixaram do lado de lá do Estreito fica ali, como se não houvesse passado, apesar de também, dificilmente, haver futuro.

O presente encarrega-se de dar-lhes um fato de treino azul-escuro, mocassins, iguais para todos, e um kit alimentar, com bolachas, sumo e outras miudezas que desaparecem num ápice. Seguem para o autocarro da Guardia Civil. Desta vez, não levam as mãos algemadas porque estamos a gravar imagens.

Cometeram um crime. Tentaram entrar em território espanhol, quase conseguiam, sem documentação. Os menores vão para instituições de solidariedade social, todos os que têm 18 ou mais anos vão ser fechados nos CIE, Centros de Integração de Estrangeiros, que não são mais do que prisões. Quem faz esta denúncia são organizações como a APDHA, a Algeciras Acoge ou a Associação Al Khaima, sediada em Tânger.

Conversei com todas elas, tal como falei com a professora Elisa Garcia España, da Universidade de Málaga. Diretora do Observatório Criminológico do Sistema Penal ante a Imigração não poupa críticas ao sistema, que trata os migrantes como criminosos, encerrando-os durante 60 dias nos CIE, sem acesso a liberdade, à justiça, a um simples pedido de asilo, antes de serem deportados.

Os menores vão ter tratamento igual quando atingirem a maioridade, mas nessa altura já não terão qualquer vínculo à família, à comunidade que abandonaram, muitas vezes graças ao dinheiro que os pais amealharam uma vida inteira. Vão ser estranhos na sua própria terra, revoltados, com uma vontade redobrada de fugir, mesmo que lhes custe a vida. Quem já tentou uma vez, tenta uma segunda…

Acusam-se as “máfias” que atuam nos países de origem, os protestos e a repressão no Rife, na região, montanhosa no norte de Marrocos, que estará a levar à fuga de centenas de magrebinos, perseguidos pelo regime de Mohamed VI. No entanto, este movimento não é de agora. Esta tragédia silenciosa tem mais de uma década e se há quem se sirva dela é porque já existia.

Hayat (vida em árabe), vamos chamar-lhe assim, desembarca quando chega a Cruz Vermelha. Tem um tumor enorme na face esquerda. De um lado tem cara de anjo, indefesa, do outro a deformação transforma-lhe a bochecha de bebé em algo que todos evitam olhar, enfrentar… que cobardes somos.

Em poucos segundos passam-me mil coisas pela cabeça. Quem é? Porque está aqui? Quem a terá enviado? Por que motivo veio com uma mulher pela qual não demonstra qualquer afeto, denunciando que não existem laços emocionais entre elas? Será que os pais só tinham dinheiro para pagar a travessia da menina? Terão enviado a filha para se livrar dela? É este um ato desesperado para a cura da criança, mesmo que isso signifique nunca mais saber do seu destino?

Pergunto ao médico: “é grave?” Da porta da ambulância olha e responde, de forma seca enquanto assina um papel: “temos de fazer uma biopsia, vários exames”. A porta fecha-se. A viatura arranca. Lá dentro, vai Hayat. A mulher voltou para trás, também ela vai ser deportada.

Hayat chegou a Barbate seis meses depois de Samuel, mas viva. Tal como o pequeno Aylan, o menino sírio que deu à costa turca e cuja foto correu mundo, Samuel também apareceu sem vida numa praia de Cádiz. Ambos eram crianças, ambos fugiam da guerra com a família, ambos perderam a mãe nas águas do Mediterrâneo.

Contudo, uma pequena diferença faz com que Samuel não seja um mártire: é africano, da República Democrática do Congo, onde uma guerra civil consome vidas sem fim há décadas. A cor da pele diferencia. A cor da pele condiciona. A cor da pele torna seres humanos em coisas transparentes, sem valor, sem direito à vida.

Numa reportagem, em fevereiro, chamei-lhe o Aylan invisível.

Agora, mostro-te, escrevo sobre ti, Hayat, porque estou farta de indiferença, de hipocrisia, de quem assobia para o lado e só dá importância ao que não interessa. Aqui, não interessa se morrem 6.000 ou 6.001.

Não quero que sejas invisível.

Gostava tanto de saber de ti.

Madrid, 24 de julho de 2017

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