Daniela Santiago

Um Salvador em Espanha ou como o (um) Português conquistou “nuestros hermanos”

Só um emigrante sabe o prazer dilacerante, o gosto inebriante, a satisfação que nos adoça a alma, quando o país que o gerou vence algo. É tão bom. Entusiasticamente reconfortante. É uma alegria, simplifiquemos o vocabulário.

“Enhorabuena por Portugal, portuguesa!”, dizem eles. “Que melodia, que musicalidad!”, deixam escapar outros e nós, emigrantes, mordemos o lábio e sorrimos com orgulho. Sim, de orgulho. Orgulhosamente, orgulhosos, porque, só quem está longe, quem sente falta, consegue descrever tamanho sentimento que nos esventra, e alimenta, fronteiras fora. Uma emoção contrária à que nos esmaga, enfurece, transtorna quando lemos, ou ouvimos, palavras dos nossos compatriotas, fronteiras dentro, com esgar de desdém, deitar abaixo, só porque sim; criticar, porque é mais fácil dizer mal do que bem; desvalorizar, porque lhes dá prazer espicaçar os outros. É quase “orgásmico” para algumas pessoas irem contracorrente, “existir”, fazer-se notar, num dado momento, graças a uma polémica que só a elas provoca êxtase. Que digam mal, se querem, mas de forma inteligente e fundamentada. No entanto, destes espasmos não reza a historia e não me apetece perder tempo com desvarios sobre desvairados.

Mais uma vez, tal como aconteceu com a vitória da Seleção Portuguesa no Euro 2016, com a eleição de António Guterres para liderar a ONU ou se repete cada vez que Cristiano Ronaldo dá uma vitória ao Real, a Madrid ou a Espanha, vejo-me rodeada de carinho, felicitações, palavras calorosas pelo triunfo de Salvador, de Luísa, de Portugal no Festival da Eurovisão. “España ha sido una mierda! Que musica fatal”, sussurram amigos, vizinhos, conhecidos, por entre um sorriso maroto. A expressão não tem o valor pejorativo que em Portugal lhe damos. Usam e abusam de “palabrotas” sem verdadeiro caráter ofensivo. Quando é a sério não se ouve “mierda”! De facto, o Festival não lhes correu bem, ficaram em último lugar, mas não deixam de falar do assunto com uma expressão divertida. Por aqui, não é preciso vencer para festejar, beber, conviver. Os espanhóis vivem em festa.

Espanha deu 12 pontos a Portugal. Lisboa não deu qualquer pontuação, zero, a Madrid. Antes das meias-finais, Espanha já se tinha rendido à composição dos irmãos Sobral. Salvador, que estudou e viveu em Maiorca e em Barcelona, foi convidado de honra num programa da TVE, o canal público espanhol. Pouco antes, partilhou uma versão de “Amar pelos dois” em Flamenco, que revela a veia artística, o humor e o génio do cantor (aconselho esta “espanholada” a todos os que ainda não viram o vídeo).

 

Manel Navarro, o candidato de Espanha, endereçou-lhe o convite e acabaram o programa televisivo a cantar juntos, antes de partir para Kiev. A operação de charme, do outro lado da fronteira, estava lançada, pelas mãos do “adversário” espanhol. 

Por cá, em Espanha, há quem descreva Salvador como um “encantador bicho estranho” que todos conquistou. A expressão é carinhosa, não pretensiosa ou ofensiva. 

O El País escreve sobre a “Lição de Salvador Sobral na disparatada Eurovisão”, ou seja, o triunfo da música sobre o espetáculo televisivo e conclui que “afinal, Sobral é música” e apenas isso.

O El Español publicou, na minha opinião, um dos artigos mais inteligentes e sarcásticos que, infelizmente, não foi entendido por muitos portugueses. O que lamento mesmo foi a falta de literacia de alguns jornalistas que não perderam alguns minutos, a ler os parágrafos até ao fim, para atacar, com violência, o diário digital e o autor do texto.

Manuel de Lorenzo começa por escrever que “desde o princípio, o plano de Portugal era fazer jogo sujo. Saltar regras. Portugal não se apresentou ao Festival da Eurovisão com uma música reles de karaoke, como manda a tradição”. Portugal, adianta, “apresentou-se com uma canção de verdade. Bem escrita, de harmonias suaves, melodia delicada e versos inspirados. E isso não vale, assim, ao resto dos países apenas restava perder”. É tão difícil entender o elogio, a mensagem, o enaltecimento dos portugueses e da qualidade da canção, do intérprete? Ou o ataque é demasiado sedutor e sobrepõe-se à inteligência?

Ainda bem que há “Quem ame pelos dois”, porque há pessoas que não se amam, nem a elas próprias. Há “Quem ame pelos dois”, por Espanha, por Portugal, e nos encha a alma, a nós portugueses, espalhados por esse mundo fora. Por aqui, em Madrid, sinto que o carinho e o respeito por Portugal é cada vez maior. Hala, Portugal! Parece que o nosso Fado está a mudar, Olé!

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