A banalização da violência

A banalização da violência

Se as notícias relatam o que se passa, o comentário ou a opinião ajudam-nos a pensar e a interpretar melhor o mundo, interrogando significados, confrontando perspetivas, abrindo caminhos de reflexão. Por isso, os média procuram nomes com credibilidade e reconhecimento público que valorizem esses espaços de análise e de contextualização, funcionando como polos de atração de leitores/ouvintes/espectadores e, ao mesmo tempo, como referências a partir das quais a realidade ganha significado. Nestes espaços, há personalidades que se destacam sempre. O filósofo José Gil é uma delas. No sábado, o artigo que assina no jornal “Público”, intitulado “o fascínio da violência”, é um texto que lê de forma particularmente arguta uma contemporaneidade que se perde em discursos explosivos.

Entre os perigos que hoje nos atemorizam, José Gil enuncia a destruição ecológica do planeta, a insegurança económica, a crescente erosão dos laços sociais e a ameaça da guerra atómica. Não serão estes perigos novos. Aquilo que se constitui como uma novidade é, na visão do filósofo, “a forma como se exprimem os conflitos – abertamente, sem escrúpulos nem contenção, abrangendo todos os temas e com um grau jamais visto de violência”. Faltou apontar a mentira. Hoje, acrescenta-se, o extremismo político, que se alarga vertiginosamente à esquerda e à direita, está a engolir “os valores tradicionais da tolerância, do respeito pelo outro, da aceitação do diálogo e do confronto argumentativos”. E isso está a alterar radicalmente “o consenso tácito gerado à volta da não-violência”.

Nestes dias de protestos mais ou menos musculados conforme as geografias, a visão de José Gil coloca-nos perante outro entendimento das imagens que nos chegam quer das tendas de manifestantes que decidiram acampar no Porto ou em Lisboa, quer da violência que se propaga pelas ruas de várias cidades francesas, sobretudo em Paris. O excesso torna-se regra e a atração por viver à margem da lei banaliza-se. “A violência contagia como uma pandemia”, escreve o filósofo. Aqui está um artigo de opinião a interromper a sucessão de acontecimentos a que estamos a assistir para nos obrigar a pensar no que eles revelam sobre a sociedade em que vivemos. O texto de José Gil não nos conduz para respostas fáceis. Pelo contrário. Por exemplo, há uma pergunta que me persegue: se a violência passar a ser uma forma comum de nos relacionarmos uns com os outros, que espaço haverá para a nossa vida em sociedade?

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