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A dívida pública deve ser notícia

A dívida pública deve ser notícia

Os média noticiosos tardam a despertar para o problema da dívida pública, sobretudo em França. Até agora, o tema tem dominado as secções de Economia, mas, nos últimos dias, tem saltado para espaços de destaque. Esta semana, o tema faz capa nas revistas “The Economist” e “L’Express”. O tom de alerta é bem evidente.

A dívida pública não é um assunto reservado aos economistas. O endividamento dos Estados e o aumento dos juros vão absorvendo uma parcela crescente dos orçamentos de cada país e isso reflete-se na vida quotidiana dos cidadãos. O dinheiro destinado ao pagamento da dívida é subtraído ao investimento público. “L’Express” pergunta esta semana em capa: Quem vai sofrer? E responde: prioritariamente os mais pobres, os mais velhos, os mais jovens. Mas todos serão atingidos por esses estilhaços. O caso francês torna a discussão mais urgente. No próximo ano, o país vai gastar 90 mil milhões de euros em juros. A dívida ronda já 119% do PIB. O problema já não é apenas a capacidade de pagar compromissos, mas também a erosão da confiança dos mercados na capacidade financeira do Estado. Pela dimensão da economia francesa e pela respetiva centralidade na União Europeia, uma crise deste tipo poderá voltar a colocar sob pressão toda a zona euro.

É precisamente nestas conjunturas que o jornalismo assume uma responsabilidade acrescida. Importa explicar com antecedência como se chegou a esta situação, que alternativas existem, quem terá de suportar os custos dos ajustamentos e que margem de decisão resta aos governos. Ao colocar estas questões no espaço público (noticioso), os média ajudam os cidadãos a compreender escolhas políticas que podem ter consequências a médio prazo. Reconhecer os sinais de risco, discuti-los e agir sobre eles é o melhor caminho para atenuar os embates que poderão resultar de uma crise. Mais do que anunciar riscos, o jornalismo deve ajudar os cidadãos a percebê-los e a participar em debates devidamente fundamentados. Isso implica um noticiário contínuo e uma análise devidamente esclarecedora do que está em causa. A dívida pública pode parecer um assunto árido, feito de percentagens, défices e taxas de juro, mas traduz uma realidade que atinge o centro da nossa vida: como se distribuem recursos, que sacrifícios nos são exigidos ou que oportunidade podem (ainda) ser abertas. É também função dos média jornalísticos dar visibilidade a estas dimensões, antes que tudo se agudize e que se reduza o espaço de que ainda dispomos para fazer escolhas.

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