Para produzir efeitos, a guerra não precisa de ser declarada, nem de enviar militares para o terreno ou fazer disparar tiros. Pode instalar-se através de sabotagens, de atentados ou de operações destinadas a desestabilizar instituições e dividir sociedades ou, então, através de informações (falsas) que jorram descontroladamente pelo universo digital. São estas as ameaças que a Rússia faz pairar hoje sobre a Europa e que os média vêm assinalando em abundância.
Uma investigação da revista “L’Express”, baseada num documento secreto dos serviços de segurança franceses, descreve um conjunto de cenários possíveis de um eventual ataque russo em território francês. O cenário mais provável é o de uma guerra híbrida a intensificar-se a partir do próximo ano. As redes de energia, os transportes e as telecomunicações estão entre os alvos possíveis. As empresas europeias de defesa são particularmente vulneráveis. As preocupações estendem-se a outras geografias. O Banco Central Europeu e a Comissão Europeia integram também o conjunto de instituições que enfrentam novas exigências de segurança. Perante estes perigos reais, a Europa revela-se pouco preparada para uma resposta rápida e eficaz.
As ameaças também operam ao nível da opinião pública. Luc Barochez, jornalista que se ocupa de assuntos europeus na revista “L’Express”, chama a atenção para o papel dos partidos de extrema-direita e de extrema-esquerda cujos apoiantes podem encontrar, por razões distintas, argumentos que os aproximem de Moscovo. A isso acresce a circulação de conteúdos nas redes sociais que ampliam esta influência. No sábado, o jornal “Público” retomava este tema, com uma peça intitulada “Guerra nas sombras da Rússia testa a linha vermelha da Europa”. Mais à frente, um outro artigo, com o título “A desinformação russa é uma arma apontada aos países europeus”, abria com estes dados: “no primeiro semestre de 2026, o número de notícias falsas publicadas por sites disfarçados de jornais fidedignos cresceu 850 por cento face ao mesmo período do ano passado, de acordo com um relatório da NewsGuard, uma empresa que avalia a credibilidade de sites de notícias”.
Perante esta conjuntura, o perigo não está apenas nas infraestruturas ou nos sistemas de defesa, mas naquilo que nós conhecemos e pensamos sobre a realidade. Estamos permanentemente expostos a desordens informativas diversas e isso divide-nos, sendo, por isso, difícil de mobiliar posições. É aí que a guerra híbrida ganha vantagem, porque não destrói pontes, nem faz desmoronar casas, antes corrói a confiança de cada um de nós. Ora essa guerra já começou há algum tempo e muitos de nós ainda nem deram por isso.