“Luvas no negócio de ações da REN”. Esta era a manchete do passado sábado do “Correio da Manhã”. A notícia cita um documento da Entidade do Tesouro e Finanças, entregue ao Tribunal de Contas para obtenção de visto prévio no âmbito da operação de aquisição pelo Estado de 13,7 por cento do capital da REN.
No texto citado, lê-se isto: “a parcela não utilizada no envelope financeiro poderá ser afeta ao financiamento dos demais custos diretamente associados à operação, nomeadamente encargos com assessoria técnica especializada, comissões, impostos e outras despesas”. O jornal perguntou ao Ministério das Finanças e à Parpública que valores e que entidades estão envolvidas no pagamento de tais comissões. As fontes oficiais não quiseram revelar essa informação e os jornalistas elaboraram uma manchete que fala de luvas.
A relação das fontes de informação com os jornalistas foi sempre complexa. O jornalismo depende das fontes para aceder à informação, confirmar factos, obter documentos e conhecer realidades inacessíveis. Mas essa relação está longe de ser neutra. As fontes têm interesses próprios, que condicionam aquilo que dizem e escolhem não dizer. Por isso, em determinados momentos optam por falar e noutros pelo silêncio. A própria herança mitológica e o étimo da palavra ajudam a perceber o que está em causa. Fonte é o deus das nascentes, uma figura que parece assegurar uma ideia de transparência e de pureza. Todavia, essa aparência é enganadora, como se percebe quando se percorre a árvore genealógica da mitologia. Fonte é filho de Jano, o deus das portas e das passagens, representado simbolicamente com dois rostos que vigiam a entrada e a saída, cujo templo se encontrava encerrado em tempo de paz e aberto em tempo de guerra. Esta imagem é particularmente sugestiva para pensar as fontes jornalísticas: aquilo que parece correr livremente pode ter portas, passagens e comportas que regulam o fluxo de informação, determinando a quem chega, quando chega e como chega.
No caso do “Correio da Manhã”, as comportas fecharam-se quando o jornal procurou conhecer melhor o significado de “comissões”. Retomando o título de uma obra do académico Rogério Santos, “a fonte não quis revelar”. E é precisamente aqui que começa um momento delicado da relação entre fontes e jornalistas: o que fazer quando a fonte se recusa prestar informação? Por si só, o silêncio não esclarece a razão da recusa, nem confirma a suspeita. É por isso que o trabalho do jornalista deve continuar quando a fonte fecha a porta. É isso que está a fazer o “Correio da Manhã”. Hoje a manchete é: “prémio de 64 milhões no negócio da REN”. Mais tarde ou mais cedo, será preciso esclarecer bem toda esta operação financeira.