A notícia que se repete e um problema que não acaba

A notícia que se repete e um problema que não acaba

A agenda jornalística constrói-se alicerçada em valores-notícia que, de certo modo, determinam a força de noticiabilidade de um acontecimento. A continuidade será talvez um dos valores-notícia menos intensos, porque falha justamente aquilo que determina a força de uma notícia: a novidade. No entanto, há um facto que não tem saído da ordem do dia e, sempre que ressurge, ocupa, com toda a pertinência, o topo dos alinhamentos: a subida do preço dos combustíveis.

Quando parece que o país já não aguenta mais uma subida de preços, eis que surge mais outra. Acontece hoje, como aconteceu inúmeras vezes num passado recente. E todos sabemos que a subida se faz em modo mais musculado e mais frequente do que a descida. Por isso, quando, no final da semana, os média noticiosos voltaram a noticiar novos aumentos, não faltaram reações incrédulas. No “Jornal de Notícias”, que anunciava “novo recorde”, a Associação de Revendedores de Energia, Combustível e Estações de Serviço exigia ao governo mais alívio na carga fiscal sobre os combustíveis e alguns anónimos denunciavam a entrada de combustível por contrabando a partir das zonas de fronteira com Espanha; no “Correio da Manhã” salientava-se que estes preços pressionam bastante a inflação, mesmo que o Banco Central Europeu insista na subida das taxas de juro. Estes são modos de acrescentar outras leituras a um facto que, na sua formulação imediata, é linear: a escalada de preços torna os nossos dias incomportáveis. Mas isso também acontece por causa da nossa dependência do carro. É por isso que a entrevista que o JN publicava nas últimas páginas da edição de sábado com o urbanista franco-colombiano Carlos Moreno cria um outro patamar naquilo que é notícia, porque nos obriga a refletir no modo como gerimos a nossa vida individual e coletiva.

O título era provocador, tal como deve ser um bom título: “é difícil mudar a mentalidade dos portugueses sobre o uso do carro”. Moreno falava sobretudo dos países do Sul da Europa onde o automóvel não é apenas um meio de transporte, mas transporta também consigo um valor social que o seu proprietário quer projetar como imagem de si próprio. Daí a atração por veículos de gama alta e, consequentemente, de elevado consumo. Nesta conversa, falou-se também da cidade dos 15 minutos que o urbanista apresentou na COP21 que se realizou em Paris, em 2015, um conceito segundo o qual o essencial deve estar a 15 minutos a pé ou de bicicleta: transportes públicos, comércio, escola, hospitais, trabalho... Moreno propõe uma verdadeira revolução, que impõe mudanças macroestruturais e alterações radicais dos nossos estilos de vida.

Não sabemos por quanto tempo esta continuidade da notícia sobre os combustíveis irá continuar, mas na tentativa de acrescentar novos ângulos a uma notícia que se vai repetindo, talvez fosse útil introduzir ângulos que nos permitissem sair das conversas habituais. Este que nos convoca a refletir sobre o que permanece inalterado na nossa relação com o automóvel é muito relevante, porque não vamos aguentar durante muitos mais anos ter uma pessoa em cada carro a circular, sobretudo dentro das nossas cidades.

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