A violência não mostra (toda) a revolta

A violência não mostra (toda) a revolta

Como deve a opinião pública ler os protestos que se multiplicam em vários países? Os média noticiosos falam de violência de grupos extremistas, de problemas de segurança, de crise política, de falência do Estado Social, de desagregação social, de sérias dificuldades no acesso à habitação. A leitura dos acontecimentos resulta em grande parte de posicionamentos políticos que condicionam visões.

Em França, a revista “L’Express” opta esta semana por salientar a incapacidade das autoridades para anteciparem os musculados protestos de 17 de outubro e conterem uma situação que se tornou incontrolável, refletindo a perceção de um Estado fragilizado. Apoiados em historiadores, os jornalistas não apresentam os acontecimentos como embrionários de uma revolução. Para Emmanuel Waresquiel, especialista na Revolução Francesa, o que se observa são motins urbanos, sem projeto político estruturado. Ao contrário dos revolucionários do século XVIII, estes manifestantes não revelam uma orientação comum. Julian Bourg, especialista no Maio de 68, propõe outra dimensão de análise: diz que estes protestos não são um acontecimento inesperado, surgindo após sucessivas ondas de contestação. A repetição destes episódios torna difícil tratá-los como isolados.

No entanto, esta não é uma crise securitária e a violência não deve silenciar as reivindicações. O debate não pode estar circunscrito às questões de segurança. A revista “Nouvel Obs” alarga o enquadramento noticioso à dimensão social, procurando junto de fontes de outros campos de saber diferentes leituras. O sociólogo Nicolas Duvoux, autor do livro “L’Avenir Confisqué” lembra que os jovens perderam o controlo sobre o próprio futuro e que as instituições não os escutam. Se os cidadãos não encontram canais eficazes para fazer ouvir as suas preocupações, a rua torna-se o espaço privilegiado para gritar essa revolta. O filósofo Tristan Garcia, autor da obra “L’autorité est un chantage”, alerta para o perigo de responder à contestação apenas com a manutenção da ordem: “quando semeamos impotência política, recolhemos raiva”, diz.

Multiplicando diferentes ângulos, os média noticiosos evitam que os relatos de confrontos, episódios de pilhagem ou atuação de forças extremistas monopolizem a leitura dos acontecimentos em perspetivas securitárias. Também é preciso descentrar a noticiabilidade de discursos políticos que culpabilizam a imigração. Dar espaço a diferentes ângulos não significa ignorar a violência. No entanto, é fulcral expor a precariedade, as desigualdades, as dificuldades em fazer face ao custo de vida, em particular no acesso à habitação. É muito importante perceber por que razão as pessoas saem à rua e por que muitos daqueles que ficam em casa poderiam também estar cá fora com as mesmas reivindicações

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