É habitual os políticos queixarem-se dos jornalistas. Na sua perspetiva, o jornalismo privilegia factos negativos em detrimento de acontecimentos positivos. Tem razão. É mesmo assim. Partindo da clássica abordagem dos investigadores Galtung e Ruge, desenvolvida nos anos 60, os académicos Tony Harcup e Deirdre O’Neill propuseram há mais de uma década uma lista atualizada de valores-notícia, colocando no topo as “bad news”, ou seja, acontecimentos com conotação negativa, como guerras, tragédias ou conflitos sociais. Essa valorização robustece o jornalismo enquanto campo de escrutínio dos diferentes poderes, precisamente nos momentos e nos lugares onde tudo parece (demasiado) obscuro, disfuncional, anormal ou inesperado. É natural que as fontes de informação visadas não apreciem tal exercício que as obriga à ineludível prestação de contas, mas isso é uma regra inevitável das democracias sãs.
Na Quarteira, Luís Montenegro exortou o país a ter coragem para “falar mais das grandes coisas” do Governo e “falar menos das pequenas”. É uma nota pertinente, se houver factos grandiosos para salientar. Criticou depois aquilo que designou como “censura moderna” em que só se debatem “assuntos mais polémicos”, “pequenos incidentes” e “pequenos episódios”. Há nestes reparos sérios equívocos. Não cabe ao Governo decidir o que é pequeno. Uma falha num serviço público, uma promessa por cumprir ou uma decisão que afete muitas pessoas podem constituir temas muito relevantes e de interesse público.
A definição do que é, ou não, notícia é uma competência do campo jornalístico, não cabendo a nenhum poder essa definição, porque isso seria colocar em causa a autonomia da agenda noticiosa. Apagar essa fronteira constituiria uma perigosa amálgama de notícias com comunicação estratégica. Numa democracia, o problema não é haver muitas notícias negativas. O problema maior seria não haver jornalistas com capacidade para as encontrar. Seria interessante ouvir no discurso político preocupações genuínas em relação a essa necessidade, vital para sociedades desenvolvidas onde a transparência do poder e a qualidade da democracia dependem de um jornalismo livre, vigilante e com meios para escrutinar quem governa.
opinião
Felisbela Lopes
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Por estes dias, as rentrées políticas constituem-se como pseudoacontecimentos cuidadosamente encenados para favorecer narrativas dos partidos que as promovem. Foi assim com a Festa do Pontal, que este ano assinalou 50 anos. A primeira edição realizou-se em 1976, a 29 de agosto, numa data em que se poderia assinalar o regresso ao trabalho. Meio século depois, na Quarteira, o líder do PSD e primeiro-ministro (os papéis confundem-se neste tipo de eventos) pediu o fim da “censura moderna”.