Na capa do suplemento “Fugas” (do “Público”) deste fim de semana perguntava-se: “o que está a mudar nas vindimas?”. No interior, a jornalista Mara Gonçalves apresentava uma resposta em múltiplas camadas. Porque as mudanças são expressivas. As vindimas começam mais cedo, são cada vez mais condicionadas pelas alterações climáticas, recorrem a processos tecnológicos sofisticados, enfrentam a escassez de mão de obra e acompanham uma renovação significativa das castas. Por detrás de um ritual, há um setor em transformação acelerada. E há, sobretudo, questões que ultrapassam o universo do lazer: trabalho, economia, sustentabilidade, clima, tecnologia. O dossier da “Fugas” dedicado às vindimas fala-nos de um mundo em mudança. E mostra como o jornalismo pode encontrar diferentes portas de entrada para o explicar.
Curiosamente, foi também por uma via alternativa que António José Seguro decidiu este fim-de-semana falar sobre o mesmo tema. Na sua conta pessoal do Facebook, partilhou uma fotografia ao lado da sua mulher, mostrando-se a vindimar em Penamacor, sua terra natal. No texto escreve: “a todos os que, por estes dias, andam pelas vinhas do nosso país a colher o fruto de um ano inteiro de trabalho, desejo uma excelente vindima e uma boa colheita”. A publicação não surge na conta institucional da Presidência da República, nem assume o tom formal de uma comunicação oficial. Está publicada na conta pessoal de António José Seguro, sendo, porém, indissociável do cargo que agora desempenha.
A vindima funciona aqui como uma espécie de ponto de encontro entre diferentes territórios: lazer e informação, pessoal e institucional, tradição e atualidade. E é precisamente a sobreposição que nos leva a repensar o lugar das chamadas “outras notícias”.
Durante muito tempo, foram vistas como conteúdos marginais, destinados a preencher alinhamentos de verão ou publicações consideradas mais leves. Hoje muitas dessas histórias deixaram de estar à margem. Fazem parte da vida de todos os dias e ajudam-nos a perceber transformações profundas na sociedade. Talvez por isso seja tempo de mudarmos a forma como olhamos para aquilo que deve ser notícia nos chamados meios de comunicação de referência. Muitas vezes é numa vindima que melhor percebemos que o mundo está a mudar. Muito.