Brasil e a batalha pela circulação de conteúdos

Brasil e a batalha pela circulação de conteúdos

Diferentes sondagens indicam um empate técnico entre Lula da Silva, 80 anos, e Flávio Bolsonaro, 45 anos, que disputam, no próximo domingo, a primeira volta das eleições presidenciais no Brasil. Estes retratos intensificam a polarização da campanha eleitoral, mas podem valer pouco nas urnas. Até lá, ser decisivo aquilo que cada um for capaz de comunicar e, sobretudo, a forma como conseguir fazer circular a sua mensagem. A esse nível, Flávio Bolsonaro tem revelado uma presença particularmente ativa no universo digital.

Nos últimos dias, os média noticiosos brasileiros têm concentrado a sua agenda na campanha eleitoral, marcada por um crescente confronto, alimentando uma corrida desenfreada pelo voto útil e provocando um efeito paradoxal: quanto mais a disputa se concentra em Lula da Silva e em Flávio Bolsonaro, maior é a visibilidade de cada um, mas também maior é a rejeição que ambos provocam. Neste contexto, os média e, sobretudo, as redes sociais deixam de ser apenas espaços onde se relata a atividade de campanha para se constituírem num território onde a própria campanha se trava. Cada declaração, cada sondagem, cada confronto torna-se um acontecimento mediático, explorado por cada lado da barricada. Na verdade, é este ambiente bélico que se faz sentir no Brasil e que não surpreende, quando os dois candidatos representam extremos ideológicos.

Os média também refletem essa divisão, no Brasil e noutras geografias. No sábado, segundo dia da visita do Papa a França, o jornal “Libération”, de orientação editorial mais à esquerda, dedicava a primeira página ao clã Bolsonaro com o título “ton univers pitoyable” (“o teu mundo patético”), um trocadilho com a expressão icónica da versão francófona da série Dallas, usada pelos média para satirizar o mundo de Trump (“ton univers impitoyable”), sugerindo-se que estamos perante um contexto impiedoso de negócios, política e ambientes corporativos agressivos. “Carta Capital”, a revista brasileira também de linha editorial mais à esquerda, coloca esta semana na capa duas fotografias, a de Lula e a de Trump, considerando este último “o real oponente”. Flávio Bolsonaro tem menor força nos média tradicionais, mas encontra no universo digital, sobretudo nas redes sociais, um espaço favorável à disseminação da sua mensagem. A sua candidatura lançou a “TV Celular Flávio Bolsonaro”, um canal digital que difunde ininterruptamente mensagens de propaganda. Por seu lado, a utilização do Instagram tornou-se mais polémica. O Tribunal Superior Eleitoral admitiu uma ação de investigação, apresentada pela campanha de Lula da Silva, contra Flávio Bolsonaro devido a uma alegada rede de perfis que, segundo os autores, promoveria irregularmente conteúdos através da funcionalidade “Collabs”, que permite a publicação conjunta de conteúdos.

Atualmente já ninguém quer apenas saber quem aparece mais nos média, mas quem é capaz de inserir mensagens em fluxos contínuos, quem consegue fazê-las circular entre várias plataformas e, acima de tudo, quem transforma apoiantes em produtores e distribuidores de propaganda capazes de atrair muita gente. Hoje a campanha disputa-se nos média tradicionais e no digital e é todo esse ecossistema que importa dominar. É nesse ambiente fragmentado que se joga uma parte importante da disputa eleitoral.

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