Nas eleições intercalares de novembro, disputam-se 435 lugares da Câmara dos Representantes e 35 dos 100 lugares do Senado norte-americano, mas no centro de todas as disputas eleitorais está Donald Trump, o político que sempre se queixou de manipulação em eleições, mas que, esta quinta-feira, prometeu, na Convenção do Partido Republicano, em Dallas, no Texas, cerca de cinco mil dólares a cada adulto americano, se os republicanos conservarem o controlo do Congresso.
Os republicanos estão muito preocupados. O presidente dos Estados Unidos também. Há uma tendência histórica nas eleições intercalares que dita que o partido que governa o país é penalizado nas urnas: normalmente os eleitores aproveitam a oportunidade para corrigir o equilíbrio de poderes em Washington e dar um puxão de orelhas ao inquilino da Casa Branca. Donald Trump quer contrariar isso. Em Dallas, pediu mesmo que, quando fossem votar, os eleitores pensassem que era ele próprio que estava no boletim de voto. Mas é aí que está o maior problema, bem sintetizado esta semana pela revista “The Economist” que escrevia que Trump “encurralou os republicanos”, tornando-os dependentes da sua própria figura. Muitos, acrescenta-se, querem apresentar-se como republicanos diferentes, evitando ser responsabilizados pela inflação, pelas tarifas ou pela guerra comercial, mas temem criticar a administração norte-americana. A estratégia foi bem-sucedida enquanto a principal preocupação era mobilizar uma base fiel, mas agora torna-se um problema quando se pretende conquistar novos eleitores ou travar a fuga dos já convertidos ao trumpismo. Segundo a revista “Newsweek”, “um em cada seis eleitores republicanos começa a afastar-se de Trump” e este, em vez de procurar novos votantes, parece centrado em garantir a fidelidade dos seus apoiantes.
Hoje o presidente dos EUA é um ativo que os republicanos não colocam em causa perder, mas é também um passivo eleitoral, porque uma excessiva colagem a si tem custos expressivos. O primeiro é óbvio: Trump está a perder eleitores que não constituem a sua base mais fiel. O segundo é económico: os preços estão altos e os americanos sentem isso a toda a hora na sua vida quotidiana. O terceiro é mais delicado: Trump está a transformar este escrutínio num processo particularmente difícil. Os republicanos vão disputar centenas de eleições, mas Trump já as transformou numa só disputa, exibindo-se em palco como se apenas ele estivesse em jogo. E isso comporta um risco colossal para si próprio como para os republicanos. Assegura a revista “The Economist” que a grande questão não é apenas ganhar as midterms, mas saber o que será o partido depois de Trump. Mesmo que os republicanos saiam derrotados em novembro, Trump continuará a dominar o partido e a influenciar a próxima corrida presidencial. Isso até poderia ser normal na política americana, mas, quando falamos de Trump, sabemos que o mais inverosímil pode acontecer.