“How dangerous are you?” É este o título de capa da última edição da “Time”. Os jornalistas dirigem-se à própria tecnologia, numa caixa branca que reproduz o ambiente de um chatbot, com botão de envio e com as opções “chat” e “cowork”. É nesta estética, com a qual nos familiarizamos cada vez mais, que a revista formula a pergunta que fica sem resposta numa capa dominada pelo branco, ampliando um silêncio que ganha uma dimensão muito inquietante: quanto mais convivemos com a Inteligência Artificial mais difícil parece saber até onde esta pode ir. E é exatamente aqui que começam todos os perigos.
Os limites da IA têm sido particularmente explorados pelos média internacionais. Esta semana as revistas “The New Statesman” e “The Economist” escolhem este tema, colocando em capa as seguintes perguntas: será que a IA vai exterminar-nos?, será possível travar o seu desenvolvimento? Talvez possamos acrescentar outra: quem está a conduzir esta corrida e quem decide até onde a tecnologia pode avançar? As respostas não são claras, mas há uma coisa que sabemos: estamos perante uma corrida e ninguém quer ficar para trás, sobretudo quando falamos dos Estados Unidos e da China. Há, de facto, um binómio que deveria evoluir em conjunto, mas cada uma das partes se impõe com cada vez mais músculo (e pouca transparência): segurança e competição. Uma pede tempo, outra exige aceleração. Uma quer avaliar, outra quer chegar primeiro custe o que custar.
Neste contexto, compete ao Jornalismo fazer aquilo que a tecnologia, por si só, não faz: parar, questionar, verificar e dar visibilidade ao que está a acontecer. Quem desenvolve estes sistemas? Com que objetivos? Que interesses económicos e estratégicos existem? Quais os riscos? Quem regula? Quem avalia? Mais do que anunciar as novidades, é cada vez mais relevante escrutinar esta evolução. E se o discurso noticioso esbarrar no silêncio dos donos das tecnologias e dos governos, poderá interpelar especialistas e, com eles, ir acompanhando não o que as máquinas conseguem fazer, mas aquilo que estamos a decidir entregar-lhes. Esse permanente acompanhamento não trava a fundo esta corrida, mas pode contribuir para uma condução menos descontrolada.