É particularmente delicada a posição de Keir Starmer no processo de nomeação do agora ex-embaixador britânico em Washington. Envolvido no caso Epstein, Peter Mandelson afastou-se do cargo, arrastando com ele várias pessoas. O chefe de gabinete do PM demitiu-se e o chefe do Serviço Diplomático foi demitido. Mas essas demissões não foram suficientes para silenciar a polémica que, entretanto, foi sendo adensada. Starmer já reconheceu que a situação tem provocado divisões internas no seu governo, mas isso, na sua perspetiva, não justifica a sua demissão. Não é aquilo que defende a oposição. Os média noticiosos também fazem outra leitura (das consequências) dos factos.
Percorrendo o noticiário construído sobre este caso, percebemos que os jornalistas não refletem apenas o que acontece. Selecionam, hierarquizam e enquadram. É esse o seu papel. Quando constatamos que os relatos jornalísticos convergem na ideia de fragilidade do PM, verificamos que esse enquadramento dos factos constrói interpretações que conduzem a determinadas leituras daquilo que acontece. Num ambiente de crise, importa a verdade dos factos, mas também temos de defender a legitimidade das interpretações, quando estas são rigorosas e devidamente fundamentadas. Neste caso, tem havido o cuidado de colocar esta polémica em contexto, contrapondo-se, por exemplo, a existência de uma maioria parlamentar confortável e de um resultado eleitoral legitimador a uma ação política por parte de Keir Starmer considerada insuficiente a vários níveis e em campos diversos.
Quando “The Spectator” titula uma peça com a frase “está na hora de Starmer ir embora” ou quando “The Economist” afirma que Starmer “não pode governar”, muitos serão tentados a ver nestas frases uma inaceitável posição política ou até mesmo uma manipulação de perceções. Convém prestar atenção àquilo que declaram várias fontes de informação citadas nos textos noticiosos, para percebermos que o discurso jornalístico faz uma leitura crítica da realidade. É precisamente nesse trabalho de contextualização e nessa capacidade de interpretação que encontramos uma das mais exigentes responsabilidades sociais do jornalismo. Daí a importância do elo de confiança que os média noticiosos devem manter com os cidadãos.
opinião
Felisbela Lopes
O jornalismo enquanto leitura crítica da realidade
Esta semana, no mesmo dia, três revistas britânicas distintas apontaram ao primeiro-ministro do Reino Unido a porta de saída do número 10 de Downing Street. "Completamente sozinho", titula em capa "The New Statesman", de linha editorial próxima dos Trabalhistas. Ainda que a teoria das balas mágicas, que preconizava uma influência direta dos média sobre as pessoas, esteja ultrapassada, é inegável que o jornalismo continua a desempenhar um papel central na definição de enquadramentos, sobretudo em contextos de crise.