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O que fica do que passa

O que fica do que passa

Sendo um género jornalístico hoje em retração, a reportagem permanece como um dos mais sólidos pilares do jornalismo. Porque escuta fontes de informação relevantes, porque dá a ver o que importa reter, porque abranda para compreender o que fica quando a voracidade mediática vai surfar a última onda noticiosa. Em terrenos abalados pelo comboio de tempestades, precisamos muito que os jornalistas assumam a condição de repórteres para dar sentido ao que realmente importa.

Neste fim-de-semana, uma reportagem do jornal Público deu voz a agricultores da região de Leiria que enfrentam sérias dificuldades para continuar o seu trabalho. Inês Ferreira, 42 anos, formada em agronomia, confessava que já não tem força para recomeçar. “Se eu fosse reerguer-me, teria de me endividar”, assegura. Neste pretérito imperfeito do conjuntivo, esta agricultora introduz uma improbabilidade que reflete a vida em suspenso de centenas de pessoas que subitamente viram a sua vida desfeita por uma tempestade.

As estufas, base do seu trabalho, estão destruídas. Quando levou o pai a ver o sucedido, sentiu estar perante alguém que fitava aquele cenário como quem encara a campa de um familiar muito próximo. Para além da tragédia individual, está em causa isto: “Que as nossas entidades tenham consciência de que um agricultor não se forma no seu ciclo de vida, um agricultor forma-se da geração anterior que lhe passou o conhecimento”. Esta rutura parece empurrar uma geração para um ponto sem regresso. No mesmo dia, o JN publicava outra reportagem para explicar que também o turismo nas regiões devastadas por esta tragédia está a definhar. Porque poucos escolhem fazer férias em territórios marcados pela instabilidade.

Perante estas reportagens, como outras em registo áudio ou vídeo, percebemos bem o que está em causa. Para além de informar, este género jornalístico aproxima, porque privilegia a dimensão do vivido, vital para a nossa compreensão. Na obra “O Sentimento de Si”, António Damásio explica que, perante duas histórias comparáveis, tendemos a assimilar mais facilmente aquela que apresenta maior conteúdo emocional. É precisamente essa dimensão que permite à reportagem cumprir uma função insubstituível do jornalismo: humanizar o que mediatiza. Ao dar rosto, voz e contexto aos acontecimentos, o jornalista transforma factos em experiências concretas, aproximando-nos de realidades que, de outra forma, pareceriam distantes. Quando bem elaborada, uma reportagem desperta uma consciência crítica que contribui para uma leitura atenta da realidade. É nesse espaço de escuta e de profundidade que o jornalismo reencontra o seu sentido maior: o de bem público.

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