Num tempo em que a informação circula incessantemente por múltiplos canais, encontrar novos ângulos para abordar assuntos que estão no topo da atualidade noticiosa é um desafio exigente, mesmo quando está em causa o Orçamento do Estado (OE), um documento que atravessa praticamente todas as áreas da vida coletiva. Mesmo assim, descobrir novas abordagens exige alguma argúcia jornalística. A reportagem, da autoria dos jornalistas Liliana Borges, Joana Gonçalves e Daniel Rocha, parte dessa premissa, procurando mostrar como se elabora um Orçamento do Estado em forma de texto, vídeos e fotografias. Os retratos dão-nos outra perspetiva sobre um tema que tantas vezes acompanhamos apenas através de números e de anúncios políticos.
Percorrendo o extenso texto e olhando as imagens fixas e em movimento, percebemos que há uma equipa (grande) no Ministério das Finanças que trabalhou afincadamente na elaboração do documento que, no dia de entrega no Parlamento, acaba por ter como protagonista o respetivo ministro. A reportagem revela que foram mais de 150 pessoas envolvidas neste processo, que a Inteligência Artificial foi utilizada na leitura de textos e no tratamento de dados e que todo o trabalho seguiu um cronograma minucioso, posto em marcha no início de março. Desta vez, não houve noitadas e o documento foi entregue no dia anterior ao prazo limite. O titular da pasta das Finanças parece querer passar a ideia de um controlo absoluto de tudo. O seu CV, que a reportagem refere, ajuda a transmitir domínio da tarefa: “entrou na administração fiscal em 1999 e foi técnico superior da Direção-Geral do Orçamento entre 2005 e 2009, participando na elaboração de vários orçamentos. Em 2007, passou pelo gabinete de Teixeira dos Santos, então ministro das Finanças. Em 2010, já na Unidade Técnica de Apoio Orçamental, na Assembleia da República, acompanhava as contas do outro lado, como analista das propostas do Governo”. Todavia, convém também saber que o OE não está fechado. Segue agora para o Parlamento, onde será alvo de debates, controvérsia e correção.
É também por aqui que se percebe o alcance do jornalismo económico. Para lá dos indicadores, das percentagens e das previsões, importa conhecer os processos que condicionam a vida coletiva. Exemplos assim permitem-nos conhecer os bastidores do Ministério das Finanças. Seria igualmente bom perceber de que modo as bancadas parlamentares se preparam para analisar este documento e elaborar contrapropostas. Esse olhar permitiria completar o retrato, mostrando como se constrói o debate em torno do OE que, a partir de agora, começa uma nova etapa. Resta saber se haverá abertura para tanto.