Os média e os 250 anos dos EUA

Os média e os 250 anos dos EUA

Assinalam-se este sábado os 250 anos da declaração de independência dos EUA. Os média internacionais dividem-se entre uma visão mais apocalíptica e outra mais ponderada em relação ao atual estado de um país em profunda transformação. As comemorações não têm sido muito pacíficas.

Segundo um artigo do jornal The Guardian, reproduzido pela revista Courrier International, o programa das comemorações, que deveria ser planeado por uma comissão criada pelo Congresso em 2016, designada America250, está a ser controlado pela organização Freedom 250, próxima do movimento MAGA. E aquilo que deveria ser uma celebração plural e participada depressa se converteu numa plataforma de promoção de Donald Trump, assente num patriotismo conservador e num nacionalismo pontuado por referências religiosas. O artigo fala ainda de uma mistura de fundos públicos e privados ao serviço de uma leitura heroica e seletiva da História dos EUA, mais preocupada em moldar a identidade do país do que em celebrar a sua diversidade. The New Statesman segue a mesma linha crítica. Na capa, um palhaço segura um bolo de aniversário desfeito. O texto de John Gray defende que os Estados Unidos estão a substituir valores fundadores, como a independência das instituições, o primado da lei e a racionalidade política, pela polarização e pela irracionalidade. O problema ultrapassa a figura de Trump, que se apresenta mais como o sintoma de uma transformação estrutural das democracias do que a causa de todos os males.

A Time procura contrariar este tom sombrio. Pela quarta vez, a revista pediu a Shepard Fairey para desenhar a capa, tendo a opção recaído na Estátua da Liberdade que se apresenta carregada de inscrições históricas que representam a evolução dos ideais americanos, destacando-se, assim, uma visão inclusiva do país. No interior, diferentes depoimentos assinados por quem vive nos EUA refletem um território diversificado e promissor. The Economist também segue o mesmo posicionamento.

Lugares privilegiados da construção da memória coletiva, os média internacionais não apenas revisitam o passado como avaliam o presente e projetam o futuro. As diferentes leituras dos 250 anos da independência dos EUA mostram que o jornalismo nunca faz uma simples evocação de datas. Cada texto propõe uma interpretação dos acontecimentos e, ao fazê-lo, influencia a forma como compreendemos aquilo que (se) passa.

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