Panoptik, a máquina que pode (quase) tudo

Panoptik, a máquina que pode (quase) tudo

Chegou esta semana às livrarias francesas o novo livro de Giuliano da Empoli: “Le Fondateur”. Trata-se de um romance que se inspira no percurso de Peter Thiel, cofundador da Palantir, para criar o protagonista Alexander Zimmer, um homem que funda a empresa Panoptik que mais não é do que uma máquina mundial de vigilância capaz de acompanhar os movimentos das populações e antecipar comportamentos, podendo mesmo ser utilizada como instrumento de ataque com potencial mortífero. Uma espécie de “thriller orwelliano ultra contemporâneo”, nas palavras do autor.

Percorrendo o livro, percebemos que já não são os políticos ou os manipuladores da opinião pública que interessam. São os engenheiros (do caos) e as próprias infraestruturas que estes constroem que devemos seguir com atenção. É esta nova elite, a que o narrador da obra atribui o epíteto de “sociopata”, que reinventa a sociedade. Hoje já não importam os acontecimentos, mas a intermediação da vida que os algoritmos comandam em permanência. Numa entrevista à revista “L’Express”, da Empoli resume assim o que procura contar: “uma das minhas personagens conta a história do ditador Salazar que permaneceu em coma durante dois anos. Quando acordou, as pessoas que o rodeavam nada lhe disseram. Continuaram a agir como se ele ainda estivesse no poder, organizando Conselhos de Ministros de fachada e chegando mesmo a mandar imprimir uma edição fictícia do jornal nacional na qual ele continuava a governar... É isso que estamos a viver hoje: a verdadeira disputa transferiu-se para outra dimensão, diferente daquela que conhecemos. É essa dimensão que procuro contar”.

A inquietação maior da obra é a seguinte: não estamos simplesmente perante uma nova tecnologia, mas perante uma mudança do próprio lugar onde o poder se exerce. Se dantes o poder estava em pessoas concretas, hoje esconde-se em algoritmos, dados, redes, cabos, centros de computação e sistemas de vigilância. Este livro não propõe uma rejeição dos sistemas tecnológicos, mas deixa um alerta para a importância de compreender estes mecanismos, discutir os seus limites e garantir uma possibilidade de ação democrática sobre este Panoptik. Na verdade, na obra a máquina pode quase tudo: segue até ao mais ínfimo pormenor todos os movimentos da população mundial. No entanto, não consegue estabelecer um contacto verdadeiro com a mulher que ama...

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