Para que serve um Congresso?

Para que serve um Congresso?

Vocacionado para eleger os órgãos nacionais e debater a estratégia e as linhas programáticas do partido, o 43.º Congresso Nacional do PSD, que se realizou este fim-de-semana em Sangalhos (Anadia), foi um momento de aclamação de Luís Montenegro e do seu Governo bem como do próprio partido social-democrata. Porque um congresso serve para isso: para reforçar lideranças e transmitir uma imagem de unidade e de confiança perante o país.

Definido como um acontecimento cuja existência pública se constrói e se projeta em função do discurso jornalístico, um meta-acontecimento emancipa-se depressa do referencial que lhe deu origem para ganhar uma dinâmica própria, bem calculada pelos respetivos promotores. É isto que constitui qualquer congresso partidário, um momento pensado em função da cobertura mediática que hoje se divide entre o trabalho de uma vasta equipa de jornalistas de diferentes órgãos de comunicação social e os inúmeros utilizadores de redes sociais que vão multiplicando vídeos e fotografias em tempo real, dimensionando e prolongando a existência deste evento muito para além da agenda formal que o compõe.

Quando na manhã de sábado Luís Montenegro chegou ao Velódromo Nacional de Sangalhos, trazia consigo uma pesada derrota da Lei Laboral, o fantasma do elefante numa sala de porcelana chamado Pedro Passos Coelho e a sombra das sondagens que colocavam o PSD em terceiro lugar. Numa ampla sala dominada por um imponente palco onde, a meio, se evidenciam três palavras: “Fazer Portugal Maior”, escritas sob o antetítulo “Trabalhar”, o presidente do partido procurou mostrar-se reformista, sem esquecer um ataque musculado à oposição. Até ao dia seguinte, haveria de ocupar o mesmo púlpito dezenas de militantes, notáveis e anónimos, unidos no louvor ao seu presidente. Quando no domingo se despediu do congresso, Montenegro era um homem revigorado pela sua tribo que haveria de fazer fila para o cumprimentar e fazer a obrigatória selfie.

Não se poderá dizer que este congresso teve uma forte atenção mediática e, por extensão, da opinião pública. Os alinhamentos noticiosos também se preencheram com o conflito no Médio Oriente e com o Mundial de Futebol, relegando para segundo plano os trabalhos de Sangalhos. O calor e, em alguns sítios, os Santos Populares ajudaram a colocar as audiências disponíveis fora de casa. Resultado: o impacto público reduziu-se substancialmente. Nestes contextos, o universo digital poderá recuperar essa perda de visibilidade, prologando a circulação de imagens, de discursos e de mensagens. Isso, claro se os públicos estiverem disponíveis para este tipo de conteúdos. Porque nenhum algoritmo consegue intensificar consumos onde não existe interesse. E é precisamente a mobilização desse interesse que hoje será um dos maiores desafios do PSD, para além da capacidade para gerar consensos no Parlamento.

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