Definido como um acontecimento cuja existência pública se constrói e se projeta em função do discurso jornalístico, um meta-acontecimento emancipa-se depressa do referencial que lhe deu origem para ganhar uma dinâmica própria, bem calculada pelos respetivos promotores. É isto que constitui qualquer congresso partidário, um momento pensado em função da cobertura mediática que hoje se divide entre o trabalho de uma vasta equipa de jornalistas de diferentes órgãos de comunicação social e os inúmeros utilizadores de redes sociais que vão multiplicando vídeos e fotografias em tempo real, dimensionando e prolongando a existência deste evento muito para além da agenda formal que o compõe.
Quando na manhã de sábado Luís Montenegro chegou ao Velódromo Nacional de Sangalhos, trazia consigo uma pesada derrota da Lei Laboral, o fantasma do elefante numa sala de porcelana chamado Pedro Passos Coelho e a sombra das sondagens que colocavam o PSD em terceiro lugar. Numa ampla sala dominada por um imponente palco onde, a meio, se evidenciam três palavras: “Fazer Portugal Maior”, escritas sob o antetítulo “Trabalhar”, o presidente do partido procurou mostrar-se reformista, sem esquecer um ataque musculado à oposição. Até ao dia seguinte, haveria de ocupar o mesmo púlpito dezenas de militantes, notáveis e anónimos, unidos no louvor ao seu presidente. Quando no domingo se despediu do congresso, Montenegro era um homem revigorado pela sua tribo que haveria de fazer fila para o cumprimentar e fazer a obrigatória selfie.
Não se poderá dizer que este congresso teve uma forte atenção mediática e, por extensão, da opinião pública. Os alinhamentos noticiosos também se preencheram com o conflito no Médio Oriente e com o Mundial de Futebol, relegando para segundo plano os trabalhos de Sangalhos. O calor e, em alguns sítios, os Santos Populares ajudaram a colocar as audiências disponíveis fora de casa. Resultado: o impacto público reduziu-se substancialmente. Nestes contextos, o universo digital poderá recuperar essa perda de visibilidade, prologando a circulação de imagens, de discursos e de mensagens. Isso, claro se os públicos estiverem disponíveis para este tipo de conteúdos. Porque nenhum algoritmo consegue intensificar consumos onde não existe interesse. E é precisamente a mobilização desse interesse que hoje será um dos maiores desafios do PSD, para além da capacidade para gerar consensos no Parlamento.
opinião
Felisbela Lopes
Para que serve um Congresso?
Vocacionado para eleger os órgãos nacionais e debater a estratégia e as linhas programáticas do partido, o 43.º Congresso Nacional do PSD, que se realizou este fim-de-semana em Sangalhos (Anadia), foi um momento de aclamação de Luís Montenegro e do seu Governo bem como do próprio partido social-democrata. Porque um congresso serve para isso: para reforçar lideranças e transmitir uma imagem de unidade e de confiança perante o país.