Quando as democracias se preparam para o pior

Quando as democracias se preparam para o pior

Nas últimas semanas, chegaram às livrarias francesas dois livros inquietantes com amplo destaque nos média: “Dans le secret des services: pour la première fois, les dix chefs du renseignement français parlent”, de Jean-Christophe Notin; e “La nouvelle armée des ombres: comment les services secrets se préparent au pire”, de Pierre Gastineau, Antoine Izambard e Franck Renaud. Ambas as obras, escritas por jornalistas, destacam o trabalho dos serviços secretos e revelam como estes se preparam para cenários de crise extrema. As eleições presidenciais francesas de 2027 surgem como epicentro de todos os perigos e o que ali se escreve parece, num primeiro momento, ficção política. No entanto, são matéria que as autoridades francesas estão a analisar com detalhe e crescente preocupação.

Ainda que a noticiabilidade sobre assuntos desta natureza suscite muita apreensão, os jornalistas têm a responsabilidade de trazer estes sinais de alerta para o espaço público. É isso que têm feito os média franceses. O propósito nunca poderá ser provocar medo, mas ajudar os cidadãos a compreender os riscos que hoje atravessam as democracias, as ameaças que pairam sobre as instituições e as vulnerabilidades que asfixiam os sistemas políticos. Trata-se, sem dúvida, de um assunto de interesse público que exige contextualização e debate. Ao destacar as eleições presidências francesas como ponto crítico, os livros e os média dizem-nos que muitos riscos nascem dentro das próprias sociedades e são alimentados por conflitos políticos que vão sendo adensados por redes de influência, campanhas de desinformação e tentativas de interferência nos processos eleitorais.

Num tempo em que as desordens informativas se tornaram instrumento de disputa política e a confiança nas instituições esmorece, os cidadãos precisam de informação rigorosa e fiável que os situe naquilo que faz periclitar sistemas democráticos em equilíbrio cada vez mais precário. Ao dar visibilidade àquilo que está escondido, os média mantêm os cidadãos em posição de alerta e isso permite-lhes identificar perigos antes de estes se tornarem ameaças temíveis. É preciso lembrar que as democracias não são regimes intocáveis e eternos. Exigem vigilância, instituições sólidas e cidadãos comprometidos com o bem público e com o interesse coletivo. Estes dois livros também se orientam para esse exercício de acompanhamento crítico daquilo que está a acontecer. No entanto, preparar o pior, como se escreve em subtítulo numa das obras, não implica aceitá-lo como inevitável. Pelo contrário: significa desenvolver defesas protetoras contra essas ameaças. Os caminhos são múltiplos, mas nenhum deles poderá ser o do silêncio. Calar o perigo não protege as democracias. Nesta conjuntura, os média noticiosos têm um papel central.

PUB