O eclipse solar tem aberto espaço a um jornalismo de ciência, nem sempre ativo nos alinhamentos noticiosos. Especialistas em astronomia e em áreas afins têm ajudado a explicar o fenómeno e várias fontes de informação da saúde têm dado pistas sobre a melhor forma de o observar. Este caso ajuda-nos a perceber a importância da Ciência. Nem sempre valorizada no Jornalismo, porque nem sempre o conhecimento científico desperta o interesse que outros temas conseguem mobilizar.
Com data marcada no calendário, o eclipse do Sol transforma-se, através do discurso jornalístico, em conhecimento acessível. Várias peças noticiosas dizem-nos o que vai acontecer, onde poderá ser mais bem observado e quais os cuidados a ter nesse momento. No passado sábado, um interessante artigo, assinado por Filipe Almeida Mendes, no jornal Público, explicava que, após o eclipse do Sol, as Perseidas vão terminar a festa com um “fogo-de-artifício natural”. Também não faltará um alinhamento aparente dos planetas. Com a ajuda do astrónomo Máximo Ferreira, escrevia-se que as Perseidas surgem quando “a Terra passa numa região do espaço em que existem mais partículas sólidas, como se fossem grãos de areia, deixadas por cometas”. É então que ocorre aquilo a que habitualmente se chama uma “chuva de estrelas cadentes”, embora, como observa o especialista, seja “mais um chuvisco”.
É precisamente este fenómeno que permite pensar o lugar da Ciência no Jornalismo. Presente sempre que há um acontecimento extraordinário que o convoca, o conhecimento científico dificilmente disputa espaço, e atenção, com a política, o desporto ou o crime, por exemplo. Há aqui um paradoxo: uma das funções da Ciência não é apenas explicar o excecional, mas tornar inteligível aquilo que estrutura o mundo e, por extensão, a vida de todos os dias, revelando outras dimensões de realidades que permanecem invisíveis quando nos limitamos à sua aparência.
Num tempo marcado pela circulação acelerada de desordens informativas, as fontes científicas credíveis explicam os acontecimentos com elementos mais sólidos e contribuem para reforçar a confiança na informação que recebemos. Quanto mais familiarizados estivermos com a linguagem, os métodos e os modos de produção do conhecimento científico, mais habilitados estaremos para distinguir informação sustentada por evidência de conteúdos manipulados ou sem fundamento. Na quarta-feira, o céu obrigar-nos-á a olhar para cima. Até lá, o Jornalismo lembra-nos que precisamos de prestar mais atenção à Ciência não apenas para compreender o que acontece no céu, mas também para perceber melhor o mundo em que vivemos.