Em direto
Manifestantes detidos em cargas policiais enfrentam primeiro interrogatório judicial. Coesão social sobre a mesa do Conselho de Estado

Quando o jornalismo escuta o luto

Quando o jornalismo escuta o luto

A morte assume, no campo do jornalismo, um elevado valor-notícia: a probabilidade de um acontecimento obter cobertura noticiosa aumenta com o número de vítimas mortais e com a proximidade (física ou afetiva). Num tempo em que a morte foi sendo progressivamente escondida, remetida para a esfera privada e afastada da vida quotidiana, os média promovem o movimento inverso: expõem-na, tornam-na pública, dão-lhe visibilidade. Nem sempre acautelando limites éticos e deontológicos. No entanto, há uma dimensão da experiência da morte que permanece à margem do discurso noticioso: o luto. Esse vive-se em silêncio. Muitas vezes longo e profundamente pesado, não encontrando lugar no ritmo acelerado e nas exigências da agenda noticiosa.

Hoje é Dia dos Fiéis Defuntos. No fim de semana, a celebração de Todos os Santos levou vários de nós aos cemitérios. A agenda jornalística integrou também o tema nos seus alinhamentos. Entre os trabalhos jornalísticos, merece destaque a peça do “Público” do passado sábado, assinada pelos jornalistas Catarina Pinho e Paulo Pimenta, intitulada “Luto: no caminho para a morte da minha filha, vi muita beleza: falar sobre o luto entre uma chávena de chá”. Distingue-se pelo ângulo pouco habitual, pela sensibilidade na escolha dos testemunhos e pela qualidade da escrita. O mote da peça é o trabalho da Associação Compassio, que procura constituir-se como âncora para pessoas em contextos de luto. Que se reúnem para falar das suas perdas ou simplesmente para escutar os outros com experiências de vida semelhantes. E é exatamente esse exercício da escuta, como um momento salvífico, que confere ao texto a sua singularidade. Ao centrarem-se no processo, os jornalistas devolvem ao luto a duração que este pede e a densidade que o jornalismo, em regra, não lhe dá. Em vez de tratar a perda como um facto a registar, tratam-na como uma experiência feita com resiliência e paciência. Ora, isso exige um tempo e uma disponibilidade para ouvir, que hoje ninguém parece ter. Sobretudo, os média noticiosos.

Ao dar visibilidade a espaços de partilha, o jornalismo contraria a tendência de viver o luto como processo de individualização, promovendo, desse modo, o seu reconhecimento social. Esse trabalho exige um apurado rigor ético: dar a ver quem sofre implica proteger quem expõe a dor em situação de enorme vulnerabilidade. Olhar o sofrimento dos outros, como bem recorda Susan Sontag, não é um gesto neutro. Pressupõe uma ética do olhar que se estende às palavras e às imagens através das quais o representamos.

PUB