Perante acontecimentos inesperados que provocam disrupções significativas na (perceção da) realidade, os média tendem a gerar ondas noticiosas expressivas, criando-se, por vezes, alinhamentos hegemónicos que dominam a atualidade até serem engolidos por outros. Foi assim com o denominado “comboio das tempestades”, é assim com a guerra no Irão, por exemplo. Como a agenda jornalística não aguenta duas ondas de elevada magnitude em simultâneo, uma quebra e desaparece. E com ela, esvai-se uma realidade que convinha não esquecer. Alguns preocupam-se em recuperar o que ficou (indevidamente) para trás.
O artigo do jornalista Carlos Cipriano, que há anos escreve sobre questões de ferrovia, não tinha chamada de primeira página, mas ocupava no sábado duas páginas do jornal “Público”, com este título: “IP sem data para reabrir Linha do Oeste após dano das tempestades”. O texto explicava que, dois meses e meio depois das tempestades, “a IP está a fazer a contratação das empresas que vão fazer os estudos geológicos dos locais danificados para se decidir depois o tipo de intervenções a fazer”. Ou seja, vai demorar muito tempo até que tudo possa regressar à normalidade. Este processo revela duas dimensões fundamentais: a desvalorização da região e a complexidade da teia burocrática. Esta última é evidenciada logo na abertura da notícia através da referência a uma outra intempérie que afetou a linha nos anos 50 do século passado. Nessa altura, não houve intrincados procedimentos concursais. Um assentador de via, uma das categorias mais baixas na hierarquia da CP, fez ele próprio os trabalhos necessários para “desobstruir uma trincheira que tinha caído na linha perto da localidade de Pereiras (concelho de Odemira)”. E a peça lá reproduz o documento com o louvor atribuído.
Aqui está o jornalismo a cumprir várias das suas funções: de responsabilidade social, ao não permitir que se esqueça o que ocorreu, apesar da onda noticiosa ter sido quebrada; de escrutínio dos poderes públicos, ao solicitar explicações à entidade responsável, a Infra-Estruturas de Portugal; de preservação da memória coletiva, ao relembrar um passado menos condicionado por teias burocráticas suscetíveis de atrasar processos.
Num tempo marcado pela velocidade e pela volatilidade das agendas, é vital que o jornalismo resista ao esquecimento e se mantenha firme na atenção sobre realidades com forte impacto nos territórios, ainda que estes sejam periféricos. Paralelamente à cobertura da atualidade, um alinhamento noticioso deve estar atento a realidades que deixaram de ser centrais, mas constituem eixos estruturantes na vida de muitos cidadãos. Porque aquilo que se apaga da agenda não desaparece, apenas deixa de merecer a nossa atenção (e sobretudo daqueles que decidem).