Quiosques: lugares de encontro em extinção

Quiosques: lugares de encontro em extinção

Serão espaços moribundos, estes dos quiosques enquanto postos de venda de jornais e lugares públicos de discussão? Hoje, muitos foram convertidos em cafés, bares, restaurantes, lojas, deixando para trás um tempo em que se constituíam como palpitantes elos de ligação com o país e com o mundo através das páginas dos jornais e das revistas que ali chegavam diariamente.

O texto da reportagem da “Fugas” desta semana abre citando um episódio do programa Impacto, da RTP, emitido em 1973, dedicado aos quiosques que, a partir de 1869, invadiram a capital. O fenómeno acompanhava uma transformação central na imprensa portuguesa. O surgimento do “Diário de Notícias”, em 1864, inaugurou a fase noticiosa da imprensa, dirigida a um público mais amplo e marcada por um modelo económico em que a sustentabilidade financeira dos projetos passava pelas receitas da venda de exemplares e de publicidade. A venda avulsa tornou-se, assim, essencial e os quiosques eram estratégicos para essa circulação massiva que se ambicionava. Eram o ponto de contacto entre as notícias e os leitores. A reportagem termina com uma pergunta que, mais de meio século depois, continua atual: “Irão os quiosques sucumbir à modernidade, tornar-se curiosidade turística, perder o seu carácter único de tertúlia volante, ou ser-lhes-á possível reafirmar a sua dignidade semiclandestina, a sua resistência pacífica?”. A resposta é indefinida.

Hoje o progressivo desaparecimento dos quiosques enquanto lugares de venda da imprensa corresponde ao declínio de uma determinada maneira de estar presencialmente no espaço público: parar, observar as capas dos jornais, trocar impressões sobre o que se passa. E depois seguir caminho. A pé. Não é assim a mobilidade contemporânea, nem tão pouco os nossos estilos de vida. Hoje deixamos de andar a pé e, se o fazemos, caminhamos apressadamente. Também deixamos de olhar para escaparates onde se expunham as publicações impressas, porque o nosso olhar está agora preso a ecrãs e a informação chega até nós em modo de notificações e de sinais de alerta. E também falamos cada vez menos uns com os outros ou falamos de outra maneira: mais sucintamente, mais a distância, mais mediados por dispositivos móveis. Hoje a informação é mais abundante, mais veloz e mais atual. Chega-nos de forma personalizada, filtrada pelos nossos interesses e selecionada por algoritmos. O quiosque fazia o contrário: expunha-nos ao mundo antes de nós sabermos se queríamos vê-lo.

Os quiosques, tal como eram num passado recente, não vendiam apenas jornais, criavam a oportunidade para estarmos juntos perante acontecimentos que se constituíam como uma espécie de “cola do mundo”, de que fala Michel Maffessoli na obra O Eterno Instante: o retorno do trágico nas sociedades pós-modernas, agarrando-nos uns aos outos à volta de assuntos comuns que nos formavam enquanto sociedade. E isso faz-nos cada vez mais falta.

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