A poucos dias das eleições intercalares dos EUA, os média noticiosos têm destacado duas pessoas que não vão a votos, mas são omnipresentes na campanha: Donald Trump e Barack Obama. No discurso jornalístico, sente-se entusiasmo com uma eventual vitória dos democratas. Muito contido, acrescente-se. Porque Trump pode continuar a ser imprevisível, embora os cidadãos disponham de importantes mecanismos de intervenção e de controlo democrático.
“Imaginem que eu também estou no boletim de voto”. O apelo reiterado do Presidente norte-americano nos comícios dos republicanos, juntamente com a promessa de oferecer 5 mil dólares a cada adulto, se o seu partido ganhar a Câmara dos Representantes e o Senado, são posições que marcam esta campanha eleitoral. Barack Obama tem procurado atuar como forte contraponto, assegurando que estas eleições são “a última oportunidade” para limitar o poder de Trump durante os dois últimos anos que lhe restam na Casa Branca. E tem falado de ética na política, dimensão que se eclipsou na era trumpista.
Na Europa, a revista “Courrier International” coloca em capa a pergunta: “Trump: o princípio do fim?”. No interior, reproduz um artigo de opinião do jornal “The Times” assinado por Gerard Baker, antigo editor-chefe do “Wall Street Journal”. Partindo do princípio de que os democratas vão ganhar as eleições intercalares na próxima terça-feira, o jornalista aconselha prudência quanto às mudanças que se esperam: “longe de conter Trump, o ambiente político dos seus últimos dois anos no cargo poderá persuadi-lo a libertar finalmente todo o seu potencial”. Trump pode continuar a governar através de decretos executivos que lhe permitem fazer (quase) tudo no plano interno. E pode ser ainda mais violento a nível internacional. É claro que o escrutínio será maior, mas, como escreve Baker, “uma das realidades mais marcantes destes últimos dois anos é que a corrupção se desenrolou à vista de todos, aparentemente sem qualquer custo político”.
Se os poderes institucionais não conseguirem moderar Trump, os cidadãos poderão ter esse poder. Na edição da “Time” desta semana fala-se na revolta popular quanto à construção de centros de dados em vários estados. E essa contestação já se tornou uma questão política que republicanos e democratas fizeram entrar nas suas campanhas. Em Grove City, no Ohio, a população uniu-se contra um projeto avaliado em 6,9 mil milhões de dólares. A mobilização foi de tal ordem que o município suspendeu a construção de um centro de dados de grande dimensão. Afinal, o povo pode (ainda) ser quem mais ordena.