Um Papa em França com uma agenda sensível

Um Papa em França com uma agenda sensível

O Papa Leão XIV chega hoje a Paris para uma viagem apostólica que terá honras de Estado. A última visita do chefe máximo da Igreja Católica a França aconteceu em 2008, com Bento XVI. Inicialmente marcada por algumas reservas do Vaticano, esta deslocação só foi confirmada em julho. Embora discreto, o Papa tem, até segunda-feira, uma agenda que cruza intensos momentos religiosos com uma intervenção de evidente dimensão política. Num país que se prepara para eleições presidenciais e numa Europa atravessada por divisões e por crises em crescendo, a pergunta é esta: que mensagens deixará Leão XIV e que impacto terão as suas palavras? Grande parte das respostas será encontrada nos média e nas redes sociais.

Com um custo previsto de 12 milhões de euros, esta viagem poderá chegar, segundo a revista “L’Express”, aos 27 milhões de euros. Poder-se-á falar da complexa organização da vigília que decorrerá amanhã no Stade de France com 80 mil jovens ou da missa de sábado na Place de la Concorde com mais de 600 mil inscrições, momentos de forte manifestação religiosa. No entanto, o Vaticano desenhou um programa que permite a Leão XIV ir muito além das celebrações litúrgicas. 

Um dos momentos mais significativos acontecerá amanhã na Maison Bakhita, um centro de acolhimento e integração social criado para acompanhar migrantes e exilados. A questão migratória tem estado muito presente nas intervenções deste Papa e é hoje uma matéria sensível na Europa, sobretudo em França. Mas será em Lourdes, no domingo, que a dimensão religiosa da viagem se cruzará de forma evidente com algumas feridas da própria Igreja. São esperadas mais de 200 mil pessoas no santuário onde estarão latentes várias sensibilidades. Recentemente o Vaticano proibiu o movimento ultraconservador Fraternidade Sacerdotal S.Pio X de celebrar aí missa segundo o rito tridentino (em latim), tendo também excomungado os responsáveis pela ordenação de quatro bispos sem o consentimento do Papa. Quando entrar no santuário, o Papa encontrará coberto o mosaico da autoria do jesuíta Marko Rupnik, acusado de ter cometido abusos sexuais envolvendo mulheres que já escreveram uma carta aberta a esta Papa. E será também em Lourdes que Leão XIV se reunirá em privado com sete vítimas de abusos sexuais cometidos no seio da Igreja.

Não é fácil prever que intervenções fará Leão XIV, mas grande parte do impacto das suas palavras será medido pela cobertura mediática que o Vaticano reunir nos média noticiosos e nas redes sociais. Mais do que aquilo que o Papa disser, importará muito o enquadramento que os jornalistas fizerem nas suas peças e os comentários que tais intervenções desencadearão não só das fontes oficiais, sobretudo políticas, mas por parte daqueles que contribuem em permanência para o intenso caudal de informação que circula nas plataformas digitais.

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