João Fernando Ramos

Ser anónimo, até na denúncia

O debate tem sido feito em lume muito brando. Devemos ou não premiar quem é apanhado numa teia de crime, eventualmente de corrupção, mas que conta quem são os outros envolvidos no mesmo processo ilegal?

A delação premiada é coisa que roça os limites da decência, acabando por beneficiar o primeiro dos criminosos que conta mais sobre cada crime, mas só depois de ser apanhado.

Tenho muitas dúvidas, as mesmas que coloco nos casos que partem de denúncias anónimas. Quem se esconde para contar um caso, obviamente tem algo a ganhar com o processo, deixando de lado o principio da frontalidade, da decência, que deve estar presente na hora de colocar a justiça a funcionar.

Vivemos num Estado de direito livre e que terá que ser sempre transparente, onde percebemos porque há determinada acusação e como é que está verdadeiramente a ser investigada. O anónimo, certamente não revela tudo, poderá esconder até a verdade. Não colabora com os esclarecimentos que devem seguir cada denúncia, levanta a suspeita e mancha a honra, sem assumir que o faz em nome da ética e do dever que nos rege dentro de uma sociedade decente.

Somos demasiadas vezes tolerantes com eles, anónimos, sem rosto, capazes de escrever tudo, sem nunca dar a cara. Não gosto dessa estirpe de seres e fico sempre com muitas reservas quando no título de um caso se confirma que parte de uma denúncia anónima.

Mesmo admitindo que em alguns processos, muito pontualmente, só saibamos o que aconteceu por um anónimo, acho perigoso premiar este tipo de comportamentos.

Prefiro os frontais, os que assumem com honra a palavra, os que revelam claramente a opinião e a defendem com bons argumentos. Gosto de debater com eles, de fundamentar as ideias nessa conversa, acentuando ainda mais o conhecimento sobre casa caso.

O Anónimo não vem à conversa, fica a ver o que acontece à espera...escondido, sempre escondido.

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