João Pedro Mendonça

O sacho, a couve e o balde

Manual - literalmente - para aprender a poupar água. À força.

O cabo do mini sacho era quase a minha medida física.

- Toma! É para ti.

Para o meu ego de miúdo, aquela declaração de posse equivalia a uma eleição presidencial.

"Uau! Vou ser agricultor a sério!!".

Era o meu primeiro dia de dois meses absolutamente entregues à Avó Ana, em Monsanto. O mês das férias da minha tia, a mediadora nesta aventura de Verão, tinham acabado. A escola só me queria de volta lá para Outubro, os meus pais tinham trabalho que chegasse em Lisboa para desfrutar do luxo da minha inatividade de aluno da primária.

Ou seja: tinha 2 meses para aprender a ser, a sério, o miúdo do campo mais suburbano de Monsanto.

- Anda comigo - acrescentou a seco a avó Ana, que nunca tinha sido ama de netos nem tivera treino competitivo para grandes sorrisos.

Passámos sem parar a rama das batatas, a leira do feijão, o tanque e os regos da rega.

Não era ali a aula. Parou debaixo das oliveiras, entre o abrigo discreto da vinha.

Duas, três cavadelas com o MEU sacho. Parecia uma obra de coelho. Olhou-me nos olhos.

- Viste como se faz? É assim que fazes. O sacho é a tua casa de banho.

Fiquei mais aturdido que desiludido com o meu primeiro papel agrícola, confesso. Aliás: o papel no ambiente agrícola foi a lição seguinte:

- Quando precisares, usas as folhas maiores da videira! Ou então, colhes uma de couve, macia! Depois pões por cima e tapas com a terra. Da figueira NUNCA, ESTÁS A OUVIR??

Acenei o meu mais firme sim. Pareceu simples. Foi. Treinei milhares de vezes. Fiquei profissionalão dos... ecopontos informais, digamos assim.

Foi portanto assim que, nos icónicos anos 70, aprendi a moderna liberdade de me livrar de um problema estrumando... E sem gastar uma gota de água. Exepto a que fez crescer couves, que de tão aveludada textura, se tornaram o meu auxiliar de higiene predileto. Folha única.

E se nós tínhamos água ali!! Na aldeia, não. Vi-a chegar por canos, já há anos que conseguia ir sozinho com o veículo familiar - o burro - apanhar grandes secas até que os cântaros se enchessem dela no fio delicado da Fonte Ferreiro... Levava livro e tudo.

Na horta, a duas horas de distância a pé, o poço com nascente, dava caudal farto para matar a sede - até aos vizinhos - e encher o tanque de rega. A minha piscina. Mas era o burro que a tinha que puxar à nora, para encher o tanque - piscina.

Todos os dias lá "nadava" e mergulhava. Mas o banho antes de voltar à aldeia? Jamais era ali, que as couves e restantes acompanhamentos, ainda hoje, não gostam nada de sabão.

Esse banho de tirar o sarro, antes de voltar à civilização, era carregado cedo num alguidar até à lage de granito, lá em cima, onde o sol havia de a aquecer. Demasiado... Antes de a usar, tinha que a dosear e temperar com um carregamento de água fria, levado à mão: 150 metros de balde cheio até ao destino.

Numa estaca na parede de granito da casa da palha, um balde de alumínio tosco pendurado, com furos e uma engrenagem de corrente para abrir e fechar o ralo. Meia dose de água muito quente do alguidar, meia da água fria do poço.

Ai de mim que falhasse a conta, no dosear do duche. A minha avó não me ralhava... mas o sol já não aquecia mais nenhuma, ir nú e ensaboado ao poço, pisando o saibro de granito era, além de humilhante, uma lição a evitar.

Nunca me aconteceu. Aprendi ali que com 10 litros se cria um duche feliz.

Ainda não aprendi a gastar mais.

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