A sondagem da Datafolha, divulgada ontem, não revelou nada de surpreendente: na primeira volta, Lula da Silva lidera com 39 por cento das intenções de voto; Flávio Bolsonaro soma 33 por cento. Numa eventual segunda volta, o atual Presidente venceria.
Na Veja, uma outra sondagem diferencia-se por apresentar um empate entre ambos na segunda volta. Entre os candidatos, há um nome que deve suscitar atenção: Augusto Cury, conhecido autor de livros de autoajuda, alguns dos quais best-sellers e com uma forte presença nas redes sociais. Num eleitorado em que muitos ainda não decidiram o seu voto (32 por cento, segundo a Datafolha), este nome pode alterar equilíbrios que hoje parecem estáveis.
E há ainda outra variável a ter em conta, também imprevisível: o caso que levou um banqueiro preventivamente à prisão e que está a provocar grandes tensões no Supremo Tribunal Federal (STF), abrindo brechas na política. O juiz André Mendonça levantou o segredo de justiça sobre um relatório policial que revela mensagens muito comprometedoras trocadas pelo seu colega Alexandre de Moraes (que presidiu ao julgamento de Jair Bolsonaro) com Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master, que foi detido por suspeitas de envolvimento num esquema de fraude financeira.
O conteúdo dessas missivas veio aumentar a pressão a um tribunal marcado por fortes divisões internas, com consequências que ultrapassam o âmbito judicial. O caso está no topo dos alinhamentos dos principais média. Hoje a revista Veja escreve isto: “o ministro Alexandre de Moraes, do STF, encaminhou ao presidente da Corte, Edson Fachin, um conjunto de relatórios da PF que atribuem possíveis crimes ao seu colega André Mendonça”. Poderia este caso beneficiar a candidatura de Flávio Bolsonaro, não tivesse este sido apanhado a pedir financiamento a Vorcaro para a produção de uma biografia do seu pai.
A dois meses das eleições, tudo pode acontecer num país particularmente propício à polémica e à polarização. Desta vez, a relação entre os poderes económico, judicial e político tornou-se demasiado tensa e está a rebentar em diferentes ecossistemas mediáticos, em modalidades distintas: os média tradicionais investigam, revelam e enquadram; as redes sociais ampliam, comentam e ajustam conteúdos aos seus interesses.
Com tantas frentes para controlar, ganhará o candidato que conseguir captar mais atenção para a sua narrativa. Há muito que, na política, a verdade deixou de ser central.
opinião
Felisbela Lopes
Brasil: uma eleição em várias frentes
A primeira volta das eleições presidenciais brasileiras realiza-se a 4 de outubro, mas as máquinas das diferentes candidaturas já aceleram a campanha. Nos média noticiosos, as sondagens apresentam alguns desencontros de números, mas todas colocam Lula da Silva com alguma vantagem. Nas redes sociais, Flávio Bolsonaro ganha força e Augusto Cury, uma surpresa, começa a afirmar-se. E há um escândalo que envolve a banca, a justiça e a política, que acrescenta tensão a uma corrida eleitoral longe se estar definida.