Teresa Nicolau

A condição da dor ou teoria prática para a sobrevivência de todos

Havia um abismo na beira da casa. Chegar perto era como estar perto do fim do mundo. Dali para a frente, a existência era outra, definida e confirmada pelos que nunca ali entraram. A casa do senhor Zau Zau tinha jeito de fronteira, sinal de uma sobrevivência que se fazia diária. Um dia, convidou-me para lanchar.

Agarrado ao volante do seu antigo táxi, o senhor Zau Zau apanhava a vida entre os buracos manhosos e o sol escorregadio. Que os clientes, esses eram poucos e às vezes. Tinha o carro colorido de azul e amarelo e as portas perras e gastas e um deus indiano no tablier que abanava a dançar e que deixava o mundo tonto de tanto dourado refletor de luz. Passava na mesma hora certa frente ao hotel, em percurso estudado no seguimento do nascer do sol e do pequeno-almoço e do calor impaciente para os estrangeiros. Em sorriso feito de uma dor permanente, fazia do silêncio uma estoica lição para quem se cruzasse no seu caminho. Mas a dor, era a dor que mais impressionava. Porque nem os olhos, manifestamente empenhados em escondê-la, conseguiam calar. Um dia, perguntei-lhe pela família. E emocionou-se. Naquele momento, preferiu falar de Samora Machel. E que pena que era que tinha morrido tão depressa, antes mesmo do país respirar e de ter tempo para se (re)erguer.

Inevitável colocar o verbo “erguer” com o (re), a dizer que a História da dor ainda anda a ser feita. Chamamos-lhe pós-colonialismo, essa oportunidade de (re)escrever a História com as histórias de quem não teve a oportunidade, nesse mundo que se ergueu a partir da exploração e da morte, da separação e do desespero. E o “sentir”, que dizem não ser verbo de se fazer científico, está em cada “nova” história que se escreve. Muitas destas histórias, estão a ser contadas pelas diferentes formas artísticas que os autores, herdeiros dessas humanidades, se dispõem a nos oferecer. Porque a arte é “um mundo não-objetivo, que trata da representação do mundo”.

Volta e meia, regresso a “Vou Lá Visitar Pastores”, ed. Cotovia (1999). O livro que encerra uma promessa que ainda não cumpri. Feita ao seu autor, Ruy Duarte de Carvalho, cineasta e escritor, que me encantou pelas subidas ao deserto Namibe e pelas vertigens dos ditos dos Kuvale, pastores de Angola. Tudo começou por um filme e depois outro. Entretanto, das aguarelas pintadas nos relatos das viagens ao universos dos bois, dos rios e dos pastos. Ruy escreve:

“Com o Hamuhapwa fiz um trato em 92, no fim da minha primeira campanha de terreno: quando voltasse para a campanha seguinte viria juntar-me a ele durante algum tempo (...)”. Pág. 151.

Ruy passou o tempo com os Kuvale, que está inscrito nos seus filmes, livros e desenhos. Cumpriu promessa. Um dia, o senhor Zau Zau convidou-me para ir lanchar a sua casa, lá no Caniço que eu nem sabia que existia, nem nunca lá tinha passado ao lado, nem em três viagens a Maputo. Pedia-me tempo. Já tínhamos feito juntos muitas horas, travessias e histórias. Foi só no penúltimo dia, que o pediu, para ser o último lá. E lá estava o abismo. Como se fosse a fronteira. Entre o bairro dos pobres e as vivendas dos ricos.

A mesa estava posta para o lanche com convidados e rapazes a ver se lhe calhava uma bolacha e uma miúda, meio criança meio crescida, que nos seus doze anos, tinha uma barriga de filho. O senhor Zau Zau chorava de emoção, com a mulher que era cabeleireira e que lá tinha um pequeno salão, com flores de plástico sem nenhum pó da estrada e uma cadeira que dava para um alguidar para lavar os cabelos e uma cortina para fazer privacidade. Chorava o senhor Zau Zau de contente e livre, que depois de tanto silêncio, estava feliz por mostrar o bairro a uma estrangeira, sem ser daquelas pessoas, que só lá ia com “ajudas” e outras semelhanças. Tinha o gosto de mostrar a sua casa, cheia de bandeiras e de independências e capulanas e madeiras desenhadas de pinturas francas. E vieram as histórias: da guerra e da pobreza. E da dor.

A dor que tinha memória. Dessa violência da pobreza. A dor feita fronteira que separa a angústia da alegria, num entre o bairro do Caniço e as vivendas do Polana, entre as poucas paredes e os cortinados lustrosos. A dor e o medo. O medo dos que mandam, daqueles que se dizem “deuses” em territórios de misérias. Os novos colonialismos existem nessas mesmas misérias, esforços diários de sobrevivência, ausências de paz e de igualdade, atentados à integridade do ser humano que, em qualquer circunstância, a merece.

Ruy também procurou pessoas, deu-lhes tempo e contou as histórias esquecidas dessas pessoas que ninguém lembra. E escreve-nos:

“(…) não é só a salvação dos kuvale que está em causa, é a minha também...”. Pág. 359.

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