Teresa Nicolau

Teresa Nicolau

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Havia um abismo na beira da casa. Chegar perto era como estar perto do fim do mundo. Dali para a frente, a existência era outra, definida e confirmada pelos que nunca ali entraram. A casa do senhor Zau Zau tinha jeito de fronteira, sinal de uma sobrevivência que se fazia diária. Um dia, convidou-me ...

    Quando cheguei, não tinha os pés no mesmo lugar. O que era de mim, estava apenas transportado, como carga a que só se exige movimento. Porque já não seria a mesma, nem um resto. À África que me descobriu, devo um tudo.

      Esta semana comemora-se o Dia do Autor Português. A Sociedade Portuguesa de Autores convida-nos a celebrar aquelas pessoas que abdicam de tudo. Para fazerem do mundo um lugar verdadeiro. Esta crónica carrega uma grande tristeza. E uma franca esperança.

        Havia um senhor no escritório do fundo, onde o meu pai trabalhava, que tinha uma secretária arrumada e um relógio de parede. Uma cadeira de pau e uns tinteiros feitos de ferro. Esse senhor era muito importante. Era um senhor que era de boas famílias e era doutor e isso era coisa que nunca queria ...

          Tive a lembrança de olhar para as memórias dos pés, enquanto lia uma entrevista dada pelo artista Julião Sarmento. Não que sejam os pés coisa de dizer tudo das pessoas e pegar por ali a vida. Mas aos pés que cada pessoa olha, é avanço de verdade que a arte é a única que sabe. Sobre o que faz, diz ...

            Numa viagem de cinco horas, o motorista que me levava esteve mais de metade do tempo a falar ao telemóvel. Baixinho e quase em resposta contínua. Falava com a sua mulher.

              A semana passou depressa. Como aquelas embarcações que chegam a Macau, levantadas das águas de tão rápidas que são. O Rota das Letras – Festival Literário acontece por esta altura, num território a oriente onde há ruas com nomes em português. E pessoas que, mesmo não sabendo português, adoram ...

                Levei dias a pensar no filme de Diogo Costa Amarante. A curta-metragem “Cidade Pequena” tem o rapaz que guia pelos lugares próprios de um filho que tem mais do que pensamento. Tem consciência.

                  Nas segundas-feiras à noite, a RTP1 ganhou o hábito de programar documentários. Excelentes documentários que nos agridem. Quer dizer, que nos violentam. Pela verdade. São trabalhos sobre a ação terrível da espécie humana no Planeta.

                    Este 2016 tem já tanta falta de gente, que mais parece um final de era, um tempo acabado, um mundo extinto. Depois de Bowie, Prince, Cohen, Breyner e outras tantas pessoas, morreu a minha vizinha do lado.

                      Há um novo livro nas livrarias que me estarrece pela sua lucidez. Entre o espanto e o magnífico retrato, encontro finalmente uma discrição sublime do meio onde cresci. Maria Filomena Mónica apresenta “Os Pobres”, em retrato intimista de uma socióloga que se interessou pelo Povo, logo pela frescura ...

                        Andando por uma semana que aponta futuros, entre tragédias políticas e novas Lisboas cheias de gente, calha-nos a morte como poesia. Leonard Cohen que se refugia no infinito e nós que nos mantemos tão violentos com o planeta.

                          Esta semana inaugura a exposição de Amadeo de Souza-Cardoso. Cem anos depois, o Porto recebe a obra de um dos mais brilhantes artistas jovens portugueses, que morreu aos 30 anos. Tinha obra feita e outra por fazer. Depois de passar pelo Grand Palais, em Paris em março deste ano, devolve-se à ...

                            O Forte de Peniche pode passar a ser uma turística pousada para comidas e dormidas, num dos lugares mais importantes da luta pela Democracia em Portugal. Imagine-se que os terrenos Auschwitz, os cerca de 40 quilómetros quadrados, de valor turístico elevadíssimo, devido ao milhão e meio de ...

                              Era uma vez a Verdade. Tinha longos braços de seda e nuvem, olhares de maravilhas e justas passadas das medidas. A Verdade tinha hábitos de aparecer a quem não a encontrasse ou mesmo a quem a desprezasse. Mas eram aqueles que a mais protegiam, que a sustentavam, que a mantinham certa e brilhante, ...

                                A Exposição tem nome de viagem. E é sempre assim. Como se a carga do artista fosse nos dada para entender melhor o mundo. "Luanda, Los Angeles, Lisboa" tem António Ole, um dos mais brilhantes senhores do pensamento artístico africano que, no violento passar do tempo, nos continua a dizer: somos ...

                                  A ingenuidade tem essa definição cada vez mais ingrata. De repente e de culpa formada como se em justiça não se pensasse todas as vezes que alguém diz: “É tão ingénua, coitadinha!”. E depois, pegamos nos poemas de Sophia.

                                    Há-de ser uma trupe, dessas com manias e asas e desejos wenderianos que andam por aí, a dar janelas e lugares, perdas de sentidos e brancas paisagens que desesperam por si. Os escritores têm esses fantasmas que são essas sombras da escrita, que atormentam quem se escapa a escrever. E é tanto para ...

                                      A Fundação Gulbenkian tem 60 anos de uma vida depois da morte. Fez-se instituição de prestígio, a partir da paixão de um homem, que por força da guerra, chega a Portugal entre perseguições desumanas e inexistências de deus. Calouste Gulbenkian é dos poucos que tem a noção da morte. E glorifica-a. ...

                                        É sempre um dos acontecimentos do ano: a apresentação do Festival de Almada, um dos mais importantes festivais europeus de teatro. Até diz o encenador Miguel Seabra que é do mundo inteiro. Também acredito. E se o é, é porque é cuidado, amado, transformado, relacionado. Os loucos são os capazes de ...

                                          Numa noite revirei o livro escrito por um amigo. Está neutro, sem edição. Sem capa ou dedicação. É uma resma de papel que trouxe para casa, sem páginas numeradas ou prazos para cumprir. O livro do meu amigo até já tem título. E tem coração.

                                            Raduan Nassar é esse escritor brasileiro que poucos conhecem e muitos perguntam se vale Prémio Camões. Entre tanta gente que desconheço, essa sorte de ter na lista dos livros da minha vida “Um Copo de Cólera”. E a sorte de conhecer a minha nova vizinha do lado.

                                              Esta semana Eduardo Lourenço recebe mais um prémio. Tem essa aura de ser mestre e de ter nos prémios o nosso agradecimento. Gentil e constante, sábio e justo, é por palavras que nos leva.

                                                A frase vem da tradução livre de uma canção pop que se ouve por aí. Livre ao ponto de se impor de repente como uma forma simples de dizer o que andamos todos aqui a fazer.

                                                  A rotina de conhecer pessoas novas, todos os dias transforma-se, a pouco a pouco, numa nébula de sons e imagens que apenas se organizam em silêncios propositados. Distancio-me tranquilamente e arrumo cada um, em sítio que exijo ser sempre o melhor.

                                                    Por sortes desta profissão, entrei na oficina de Vhils. Lugar para os lados do Barreiro, no meio dos barracões da indústria desmembrada, em nostalgias viradas ao Tejo sempre denso, descobre-se branco e imaculado, cheio de espaços e sem vazios.

                                                      Encontrei o Pedro na Islândia. O Pedro fez a Liberdade cumprir-se em novo: E escolheu o que é.

                                                        Há nestas terras brancas todos os sentidos da morte. O frio e a distância e a luz tímida e as árvores escuras fazem da Islândia o mapa de todas as solidões.

                                                          Na semana em que se assinalam os 100 anos da entrada de Portugal na I Guerra Mundial, há mais para além dos militares corajosos, da ingenuidade da República e do frio que a morte trouxe ao início do século XX. Há também a pintura magnífica de um mestre português, que se dedicou a fazer da sua arte ...

                                                            Cada rua que percorremos ao ler Gath Risk Halberg é uma escolha nossa, um percurso guiado e absolutamente livre. É proeza que poucos autores conseguem. Fazer de um livro não uma intimação, mas um mapa dos nossos sonhos.

                                                              “Outra vez?”, questionaram-me quando disse que tinha a noite ocupada com um concerto de Jorge Palma e Sérgio Godinho. “Claro”, respondi. “São todos diferentes”.

                                                                Dizem que a composição é tudo, numa fotografia. Estabelece o ponto de vista, guia o olhar, recupera instantes. É isso e tudo o resto. Uma sucessão de sombras na luz, que nos resgatam aos dias. A composição, sim. E a verdade.