Teresa Nicolau

Agora que os meninos da gruta estão a salvo, também conheço uma tailandesa

Nos últimos dias todos os alertas foram dar à Tailândia. Acompanhou-se ao minuto (como se escrevia em títulos noticiosos de alguns órgão de comunicação) as operações de salvamento. A cada pessoa fora da gruta o “mundo” contava os salvados e os por salvar. Fazia-se contas de somar à emoção, multiplicavam-se técnicos, dividia-se o jantar com a previsão da monção, diminuía-se a restante atenção. Ainda bem que se salvaram estas pessoas. São humanos de uma resiliência que atinge o absurdo do maravilhoso, corajosos meninos que souberam pacientemente esperar pela vida. Ao elogio coletivo, junto particular comoção para o final feliz.

A minha filha estudou na Índia. Esteve dois anos numa escola, graças a uma instituição internacional como a United World Colleges que lhe proporcionou uma bolsa de estudo para completar o ensino secundário. Nessa escola, estavam mais de 300 alunos do mundo inteiro. 

A minha filha tornou-se a melhor amiga de uma indiana, uma francesa, uma norueguesa e uma tailandesa. Combinaram todas vir a Portugal, para um festival de música neste verão. Neste verão, nas suas férias do primeiro ano de universidade, cada uma num país diferente, cada uma cheia de saudades das outras.

A Plearn é a tailandesa, amiga da minha filha, que conheço. Estuda em Boston, na Universidade Tufts, uma das mais prestigiadas ao nível dos estudos das Relações Internacionais, com uma bolsa de estudo oferecida pela instituição universitária norte-americana. 

A Plearn, que é a tailandesa que conheço, pediu visto para entrar no espaço da União Europeia há mais de seis meses. A Plearn, que é a tailandesa que conheço, teve de ter cartas de recomendação de cidadãos europeus e cartas de acolhimento no espaço Schengen. A Plearn, que é a tailandesa que conheço, viu-lhe o visto de turista ser-lhe rejeitado.

Entre as notícias da tragédia, que felizmente não foi, muito pensei na Plearn, que é a tailandesa que conheço. A forma como a maioria dos órgãos de comunicação social em Portugal “entreteve” o espaço que lhes foi conferido pela Democracia, foi mais do que exaustivo. Foi obsessivo. Muito desse jornalismo, se transformou em “enredo dramático”, sem investimento, sem pensamento, no fundo, mesmo sem jornalismo. 

Apenas “a emoção e os diretos”, em contagem decrescente. E no momento exato - no momento exato – em que todas as pessoas da gruta estavam a salvo, o assunto foi “arrumado” com uma frase em rodapé. E logo se passou para “a tragédia seguinte”: os detidos dos eventos de Alcochete em alguns dos ditos orgãos de comunicação. 

O que pensei imediatamente foi na recusa da entrada da Plearn na União Europeia. E não, claro que não é uma tragédia. Nem sequer estou a comparar. Apenas a pensar. 

Um dia, quando a história da gruta já não existir, estas pessoas podem requerer um visto para um dos países da União Europeia. Daqui a cinco, seis anos, os meninos da Gruta da Tailândia vão ser jovens adultos e podem estar a estudar nos Estados Unidos da América ou no Japão. E ter amigos em Portugal ou em França e planear umas férias divertidas. 

Daqui a cinco ou seis anos, gostaria de ter um alerta dos mesmos orgãos de comunicação que tanto “exploraram” a história do resgate, com a notícia da recusa de entrada destes jovens tailandeses no espaço europeu. Sim, porque é muito provável que aconteça, nesta Europa que insiste cada vez mais em recusar a entrada de pessoas, quer sejam refugiados em barcos de salvação, quer sejam jovens em férias. 

Enquanto o “dito jornalismo” fizer apenas notícia “24 sobre 24” do “imediato”, chorando “parcas humanidades”, e não se preocupar com as verdadeiras questões humanistas, que importam no dia-a-dia, algo está mal na Democracia.
 
Isto é como tudo 
não há-de ser nada 
a minha namorada é tudo que eu queira 
mas vive para lá da fronteira

Separam-nos cordas 
separam-nos credos 
e creio que medos 
e creio que leis
nos colam à pele papéis

Tratados, acordos 
são pântanos, lodos

Pisemos a pista
é bom que se insista 
dancemos no mundo
 
“Dancemos no Mundo” de Sérgio Godinho

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